segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

AS MEMÓRIAS MAIS TRISTES DA MINHA VIDA


2ª Parte

AUTOBIOGRAFIA

O meu primeiro ano de escola (1954)

Vou começar por falar sobre o meu primeiro dia de escola, amigos e colegas que tive e das brincadeiras que fazíamos.
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia que fui à escola, 13 de setembro de 1954, estava muito feliz e com muitas expetativas de saber o que realmente consistia em a escola e conhecer novos amigos. Lembro-me que quem me levou à escola no primeiro dia, foi o meu irmão Ramiro, foi muito importante para mim, visto ausência de meus pais devido ao trabalho.
 O primeiro impacto sobre a escola foi positivo, o Sr.  Professor Marcolino era simpático, atencioso o que é algo que nos preocupamos mais quando somos pequeninos. Isto deve-se ao facto de nos preocuparmos por entrarmos num mundo de uma pessoa ou de pessoas que desconhecemos totalmente, é o medo do desconhecido e o sentimo-nos desprotegidos. Quanto aos meus colegas gostava de todos. Em relação às minhas brincadeiras escolares gostava de brincar às corridas à apanha e a quase todos os jogos que havia nesse tempo. Conclui-se que tive um primeiro ano de escola muito feliz, se bem que tive alguns percalços, mas isso, também faz parte da experiência da vida.

A infância é o período no qual edificamos as bases que sustentarão tudo o que virá depois. É também um período mágico, onde o brincar e a imaginação constroem memórias afetivas cheias de significado que irão perdurar por toda a existência.
Venho pensado muito na minha infância, não com saudade ou saudosismo e nem com desejo que tudo tivesse sido diferente. Apenas tenho pensado. Pensado talvez para resgatar as lembranças da criança que fui, que pude ser, que me deixaram ser.
Tenho-me esforçado para lembrar pequenos momentos que podem ter definido a personalidade, os traumas, a visão do mundo e até a capacidade que hoje lido com a felicidade e com os momentos de frustração.

“Uma diversão deplorável tinha ainda sete anos”

Tratou-se de um caso de uma tamanha crueldade e malvadez. Era junho de 1954, andava na escola e tinha feito a primeira classe. Nessa altura éram três meses e mais alguns dias de férias. Na aldeia havia muitos miúdos e como os nossos pais não tinham ocupação para nos dar, porque éramos ainda pequenos, passávamos o tempo nas brincadeiras, outros mesmo sendo petiz, levavam-nos com eles para as hortas para não os deixar sozinhos em casa. Como o verão é sinónimo de colheitas, os filhos sempre davam uma ajuda na apanha das batatas, cebolas e na rega dos produtos que ainda se aguentam mais tempo na terra.
A PRAÇA
Um dia à tarde estava a brincar na praça com mais dois colegas de escola, o António de nove anos, filho da tia “Prina” e o Antoninho de sete anos, filho do tio “Latas”. Aproximadamente dali a uma hora apareceu junto de nós, o Matias com uma corda na mão, este já com dezoito anos, filho do sr. Abdiel, homem rico da terra, convida os meus companheiros se queriam ir com ele aos prados buscar a égua ao lameiro. Eles disseram logo que sim. Ora como eu também estava, lembrei-me rapidamente que os meus pais estavam nos prados numa terra, que o “tio Caixa” fez o favor de ter emprestado para semearem as batatas, nós infelizmente não tínhamos terras, vivia-se simplesmente com a arte do meu pai que era de alfaiate, e porque não dizer também de muitas ofertas de pessoas amigas; que na altura das colheitas e das matanças, ofereciam de tudo um pouco aos meus pais.
É também bom dizer; só com a profissão de alfaiate, mal dava para o pão de cada dia, “coitado dele”, com sete filhos, mais eles os dois, éramos nove bocas para alimentar, só ele a trabalhar era obra! Era a generosidade dessas pessoas que muitas das vezes que não tivéssemos passado ainda pior. Mas atenção! Como ninguém dá ponto sem nó!...

“Somente o justo desfruta de paz de espírito”

Eis que o meu pai pagava com pequenos arranjos, quando as pessoas lhe pediam para meter umas cuádas nas calças, levantar bainhas, passar os fatos a ferro, encolher calças ou casacos, ele fazia questão de não levar dinheiro nenhum.
Mas o mais louvável dele, era que não discriminava ninguém, fosse quem fosse, tanto aqueles que lhe davam, como a aqueles que não podiam dar coisa nenhuma, até mesmo não sendo cliente dele, não era capaz de lhes dizer não, considerava-os a todos como amigos, simplesmente agradeciam com um obrigado Adelino (chastre). Era por isso os meus pais serem tão respeitados pela generalidade das pessoas de Argoselo.
RUA PRINCIPAL
Como estava a contar, era a altura de arrancar as batatas e então, aproveitava para ir também, sempre daria algum jeito em qualquer coisa. Mas como não fui convidado pelo Matias, deixei-os distanciar consideravelmente. Quando eles já estavam onde hoje se situa a farmácia, comecei a andar fazendo de conta que nada tinha a ver com eles, só que o Matias, não sei porquê, estava sempre olhar para trás e fazia sinal intimidando-me, anda cá; se te apanho, prendo-te com a corda.
Mas, eu continuava sempre andar atrás deles, a certa altura o Matias, esconde-se sem eu dar por ela atrás da capela de São Sebastião, quando eu estava perto dela, ele sai a correr e apanhou-me, foi consequente com o que dizia, prendeu-me com a corda envolta da cintura, deita-me ao chão e começa a puxar por mim arrastando-me ao longo da estrada saibrada, desde a capela até à moagem do Lopes sempre sozinho a puxar. Quando me desprendeu e largou, eu desisti de ir a ter com os meus pais, porque estava dorido das pernas e braços, fiquei aterrorizado! tinha receio de lhes contar o sucedido e dai levar mais pancada… voltei para casa.
Desta infeliz atrocidade, contraí o esfolamento da perna esquerda e do braço direito. Passaram-se vinte e quatro dias, a perna e o braço, cada vez mais infetados e ainda eu não tinha revelado nada aos meus pais.

“Tudo se resolveu na base da sensatez e paciência”

Desesperado não podia aguentar mais, então que remédio se não lhes contar tudo o que se tinha passado, mesmo que levasse porrada.
O meu pai não me bateu, mas, insurgiu-se zangado por não lhe ter falado logo da situação, porque talvez as coisas não tivessem chegado ao ponto da gravidade em que a perna e o braço. O meu pai foi logo falar com o pai do Matias, relatou-lhe o que ele me tinha feito. prontamente se propôs a mandar vir o Dr. Jota de Bragança, observou-me a perna e o braço e disse que tinha de ir imediatamente para o hospital de Bragança, pegou em mim e levou-me.
RUA PRINCIPAL
Enquanto hospitalizado, simplesmente tomava antibióticos depois passavam com uma compressa e um líquido nas inflamações nada mais.
Passados vinte quatro dias, o Dr. Jota, dá-me alta do hospital e leva-me novamente para Argoselo na mesma como me tinha levado para o hospital ou pior. Ora, nessa altura as festas da Senhora das Dores e Santa Bárbara, eram no 1º domingo de setembro, e como tal, só encontrei essa justificação para que tivesse dado alta. O meu pai também não encontrou outra explicação que não fosse pela mesma coisa. Inconformado com a situação, nesse mesmo dia, foi falar com o pai do Matias.
Ó sr. Abdiel; como é possível o Doutor Jota, ter dado alta ao meu rapaz e o traz na mesma como o tinha levado? Diga ao Sr. Doutor, que o leve novamente para o hospital porque não está em condições de ficar em casa sem tratamentos; O Sr. Abdiel altivo e arrogante, vira-se para o meu pai e disse-lhe: já não tenho nada a ver com isso; se o  Dr. Jota trouxe o teu filho, é porque já está curado, se achas que tem mais alguma coisa, trata tu dele se quiseres. Foi nesta atitude do Sr. Abdiel, que o meu pai achou o objetivo da esperteza saloia, como foram as festas o centro da combinação, para que o Dr. me tivesse dado a alta, no intuito de passar por despercebido.
 Entretanto como o meu pai não tinha alternativa, e eu estava tão doente que até transpirava com a febre, tinha de fazer alguma coisa, levou-me segunda-feira depois das festas para o hospital.  Nessa altura se o meu pai tivesse feito queixa do Dr. Jota, ainda era preso. 

“Pessoa que tem bom coração, sempre tem as mãos abertas, para ajudar o próximo”

Passado uma semana o meu pai, vai visitar-me ao Hospital, encontra-se com o Dr. Manuel Pires, pessoa muito afável, por essa razão era muito respeitado em Bragança. O meu pai conheci-o, mas como nunca tinha falado com ele, perguntou-lhe: Sr. Doutor, o que tem a dizer do meu filho? Mas quem é o seu filho? Aquele que o Doutor Jota, deu alta e o levou para Argoselo na mesma como estava depois de ter estado aqui internado no hospital vinte quatro dias; ah! Já sei, o rapaz que foi arrastado em Argoselo por um adulto? Sim, Sr. Doutor, essa mesma.
CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO
resposta do Sr. Doutor Manuel Pires, o seu filho apanhou uma tuberculose óssea na perna, nas ancas e no braço direito, o Doutor perguntou ao meu pai: por que razão se deixaram relaxar tanto tempo sem que o tivessem trazido ao hospital? O Doutor Jota, hospitalizou-o e esteve vinte quatro dias internado, não sei por que razão o Dr Jota, lhe deu alta e o levou na mesma para Argoselo. E agora Sr. Doutor Manuel Pires? vou reunir com o Sr. Doutor Flores e com o Sr. Doutor Jota, o que vamos resolver, daqui a cinco dias, o hospital depois vai contata-lo, está bem? Está Sr. Doutor obrigado.
Assim foi, o meu pai foi chamado ao hospital, quando estava a entrar no portão, deparou-se com o Dr. Jota que vinha de saída e perguntou-lhe, se sabia algo sobre a minha situação: sei diz o Dr. Jota, vai ser levado para o hospital São João no Porto, já não há nada a fazer aqui, tem de ser- lhe amputada a perna esquerda. Logo o meu pai desata a chorar desnorteado com o choque que recebeu.
Entretanto a seguir o Sr. Dr. Manuel Pires, também vinha de saída do hospital, vê o meu pai a chorar e perguntou-lhe: porque é que está a chorar homem? Vão levar o meu filho para o Porto para lhe cortarem uma perna, quem é que lhe disse uma coisa dessas? Foi o Dr. Jota! Não ligue! O seu filho não vai nada para o Porto, vai ser operado à perna e ao braço aqui no hospital.
Enquanto as inflamações não desaparecessem, não me podiam operar. Levou quase sete meses a desinflamar, depois sim fui operado, deitaram-me no banco de operações e colocaram-me uma máscara na boca e nariz, estive a chupar mais ou menos quinze minutos e adormeci.

“Graças a Deus correu tudo bem”

Agora só faltava recuperar, enquanto isso, foram internados na enfermaria onde estava a readquirir o andar, “o Tio Bechiga” e o Tio José da bota", para serem operados à apendicite e a uma hérnia. Enquanto esperaram para fazer as cirurgias, levavam-me ao colo quando precisava de ir à casa de banho ou a outros sítios. Foram muito boas pessoas, nunca os esquecerei, estas cirurgias aparentemente mais fáceis, mais ou menos dentro de um mês de internamento, saíram enquanto eu tive de penar e continuar no hospital.
RUA DO CALVÁRIO
Estava prestes a fazer um ano de internamento, qualquer dia ia a ter alta, segundo as informações uns dias atrás do Sr. Dr. Manuel Pires.
Finalmente o dia da alta hospitalar que tanto desejava chegou, estava entusiasmado por recomeçar a escola. Mas, ainda tive de pernoitar até para o outro dia, porque tinha de vir o meu pai ou outra pessoa da família buscar-me.
O que mais me interessava de facto, era ficar com a perna e o braço curados, mesmo a ficar a coxear um pouco, desta tragédia por que passei. Dei imensos aborrecimentos ao meu pai e a toda a família, mas como esta fatalidade ainda não vai ficar por aqui, o óbvio é que no tribunal tudo se irá resolver. 

“ Não tenho medo das pessoas. Tenho é nojo das pessoas falsas”

É claro que o meu pai tinha de meter o Matias em tribunal pela crueza do seu ato. Desde a instrução até à sentença, esperou-se um ano e meio, até lá; o pai do Matias o rico da terra, conseguiu angariar cinquenta testemunhas.
Não foi preciso entrar em todas as tabernas existentes na aldeia, nem andou de porta em porta à meia-noite a suplicar, bastou esperar pelas noites e entrar na taberna que sempre frequentou a da Sra. Antónia xuxo, para escolher à vontade os que iriam cair na rede.
Primeiro deixava-os beber uns copos, depois quando estavam mais para lá, do que para cá, entrava ele em ação: então já te vais embora chico? Anda cá; bebe mais um copo comigo, eu pago. Depois, chamava-os à parte para a rua e dizia-lhes: chico ou outro nome qualquer!... Preciso dum favor teu, óh Tio Abdiel, diga lá, estou à sua mercê, precisava que tu fosses testemunhar a favor do meu filho contra o filho do Adelino (chastre), não vais ficar mal comigo. E assim sucessivamente todos os dias até não querer mais. Até à sentença, foi um forrobodó.
ROTUNDA DO CALVÁRIO
Com todas estas testemunhas, da verdade tornaram-na em mentira, e assim o Tribunal deu razão ao Matias.  
Como disse, as minhas testemunhas eram duas, passou a ser só o António da “tia Prina” foi a meu favor, o Antoninho do “tio Latas” ainda meu parente, também virou lata como o próprio nome indica.
Mais tarde quando eu já tinha 21 anos de idade, ainda podia recorrer para tribunal, é claro que me aconselhei com um advogado, disse que sim podia, porque era de maioridade, mas depois bem falado com a família desinteressei-me. 
Na altura era pequeno e não tinha discernimento, quero deixar na minha Autobiografia, a minha imensa gratidão às famílias do Sr. Dr. Flores e muito em especial à família do Sr. Dr. Manuel Pires, pela sua benevolência, raro é o dia que não me lembre de rezar pelas suas almas, é o mínimo que lhes posso fazer, é a eles que hoje devo com que a minha perna não tivesse sido amputada. para assim resistir às adversidades e ultrapassar esta hedionda crueldade, que me deixou marcado para toda a vida. Este sacrifício a que me sujeitaram, equivaleu a um ano e vinte e quatro dias de internamento no hospital. Do Dr. Jota, só guardo mágoas não me deixa saudades nenhumas.

“A caridade é a felicidade dos que dão e dos que recebem”

Um dia vim a saber que o Sr. Dr. Manuel Pires, mandava a empregada telefonar às pessoas que não tinham posses para pagar as consultas que viessem, porque fazia questão de não lhes levar nada. Também sei, que chegou a comprar o primeiro Raio-X para o oferecer ao hospital de Bragança. Este Senhor Dr. também veio a ser Presidente da Câmara e Governador Civil de Bragança.  Só não entendo mesmo depois da sua morte, nunca tenha sido homenageado pelos cidadãos de Bragança por tudo que ele fez pela cidade e pelas pessoas. Não fizeram eles, mas fiz eu por minha vontade.

“Difícil não me lembrar do que nunca esqueci 2007”

Fui à Câmara Municipal e pedi o topónimo das ruas de Bragança, verifiquei, e qual a minha reação; estupefato! não havia sequer ao menos uma rua em seu nome.
Não esperei nem um minuto, inscrevo-me para falar com o Sr. Engenheiro deste pelouro, dali a dois dias, concedeu-me uma reunião e disse-lhe: o Sr. Engenheiro, chegou a conhecer o Sr. Dr. Manuel Pires? Respondeu-me: Era uma boa pessoa! então como é possível que um Homem como esse, que exerceu os mais altos cargos da cidade de Bragança, um grande filantrópico, e não haja nada que mencione o seu nome em publico?
PRAÇA DA SÉ EM BRAGANÇA
O Sr. Engenheiro admirado disse: Não tem? Bem, realmente também acho muito estranho, vou verificar o topónimo das ruas, se não houver, podemos propor uma em seu nome, porque brevemente vamos colocar placas em mais duas ruas novas na cidade,
O Sr. Ilídio, vai fazer o seguinte: escreva uma carta para a Câmara a providenciar, que este assunto, vá à discussão numa próxima Assembleia de Câmara.
Assim fiz, votaram todos os vereadores unanimamente. A Câmara informou a família se fazia objeção que a Câmara desse o nome de Dr. Manuel Pires, a uma rua da cidade. Eu, sei que os netos não se obstaram. Hoje este Grande Senhor. Doutor Manuel Pires, tem uma rua em seu nome. Não deveria ser uma rua! Era uma grande Avenida bem merecida... mais vale tarde do que nunca…

“Terminado o ensino primário, fiz a quarta classe 1957”

Concluído o ensino primário, aos dez anos de idade, tornei-me um pouco mais autónomo e responsável. Fiz amigos, alguns ainda se mantêm, mas poucos, porque cada um seguiu a sua vida, e eu fiquei por aqui porque tinha de ajudar os meus pais. Até aos dez anos de idade, posso dizer que tive dois momentos, o bom e o mau. 
RUA PRINCIPAL
A partir daqui até aos meus catorze anos, o meu quotidiano de vida, nunca foi dos melhores, a vida do interior, foi sempre bem sofrida, muitas das vezes andava descalço, casa muito precária, enfim, só eu sei o dia-a-dia complicado em que se vivia nessa altura. Fui um rapaz comum, como qualquer outro pré-adolescente da aldeia de Argoselo, na realidade tinha sonhos, objetivos, mas sem as mesmas oportunidades que outros tiveram. Os meus pais eram pobres.

“O tempo não volta para trás”

Longe vão os tempos em que a aldeia de Argoselo fervilhava de vida. As casas estavam cheias de gente que uns trabalhavam nos campos e outros nos negócios das peles, pois não conheciam outro modo de vida e os seus desejos de ambição resumiam-se às colheitas fartas que assim afastavam o espectro da fome. Mas havia fome, muita fome. Estou a falar de um tempo antigo, do qual uma sardinha dividida por três, do carolo de centeio bem negro torrado nas brasas untadas com banha a servir de manteiga, caldo de cebola quando as batatas já se haviam acabado e de refeições em que a travessa do guisado era só uma e se colocava no meio da mesa, quando havia mesa e no caso de não haver, à roda da fogueira, onde a família comia em silêncio depois de dar graças ao divino por mais uma refeição... o silêncio da refeição não se devia ao não terem que dizer, mas sim ao tempo que perderiam se ocupassem a boca com palavras em vez de mastigar a parcela que a cada um calhava.
RUA PRINCIPAL
As batatas eram cozidas com a pele por via de não desperdiçar nada. O pão, muitas das vezes, mesmo duro, era o único que havia. As crianças pequenas eram deixadas na rua todo o santo dia, por vezes entregues a elas próprias, enquanto os irmãos mais velhos saiam com os pais para fora aos quinze dias aos negócios das peles, aqueles que tinham terras iam cuidar das novas colheitas. Quando a fome começava a apertar, as brincadeiras faziam esquecer a vontade de comer o carolo de pão, porque muitas das vezes nem isso havia, e se resmungassem muito, ainda levavam uma valente tareia. Hoje, disto tudo o que resta destas memórias, para além de algumas vezes de barriga cheia, é claro e destas histórias para contar aos filhos e aos netos, se bem que estes últimos tenham tido dificuldades em acreditar, visto que nada lhes falta e não conhecem as consequências da palavra miséria, ou se calhar, nem a própria palavra fome…

“Havia que fazer alguma coisa”

Comecei a trabalhar cedo e a ter responsabilidades. Aos catorze anos eu já estava nas estradas e florestas com enxadas e picaretas ao sol árduo da meia tarde. Um ano depois fui para as minas, onde andava a trabalhar enterrado de lama até à cintura. Todo esse sacrifício para ganhar 120 escudos por mês, para fruto de um pão ao pequeno-almoço, uma malga de caldo e um isco ao almoço, à noite ao jantar uma malga de caldo de arroz, de couves, de feijão ou de batatas e cebola. 
Nem sempre tive o que comer, ia muitas vezes para a cama com a barriga roncando, e com o pensamento de que ao amanhecer tinha de acordar. Comia um simples carolo de pão e ia novamente para mais um cansativo dia de trabalho. Tudo isto porque não queria seguir a profissão do meu pai, alfaiate. Uma experiência nada estimulante para mim, não gostava,

“Tomei uma decisão”

Neste período de pré-adolescência, de mudança, de dúvidas, de curiosidades, inicia-se uma nova etapa. Decidi ir trabalhar para o Estoril em (1966), ano do mundial e do celebre Eusébio. Fui sozinho sem conhecer ninguém. De início foi um pouco complicado, senti-me sozinho e triste.
RESTAURANTE CASINO ESTORIL
Com idade de dezasseis anos, entrei no mundo do trabalho. Comecei a trabalhar no Casino Estoril como copeiro, deu-se então outra mudança na minha vida: tinha de cumprir horários, cumprir ordens, ser responsável pelo meu trabalho, o que me fez crescer, tornou-me mais adulto, mais responsável, mais autónomo.
Apesar de tudo, gostava do que fazia, mas apôs um ano sai da copa, em abril de (1966), o Sr. Dr. Manuel Teles, mandou-me inscrever na Escola de Hotelaria Alexandre de Almeida em Lisboa. Tirei o curso de empregado de mesa com aproveitamento de doze valores em cada uma das nove disciplinas. Com a realização deste curso, apercebi-me que tinha aptidão para trabalhar nesta área.
 Pois era uma profissão que eu gostava e tinha oportunidade de adquirir novos conhecimentos, algo que me fascinava.
Para quem ache que só sofri, está enganado, também tive os meus momentos de lazer e entretenimento, quando me foi proporcionado o emprego no Casino Estoril. Esses momentos foram alguns felizes, outros também foram bastante duros.
Trabalhava-se muito, servíamos muitos banquetes de 800, 900 e até 1200 pessoas. Além disso, os empregados de mesa tinham de ser também estivadores, o que quer dizer que tínhamos de andar a transportar as mesas bem pesadas às costas, colocá-las de maneira que os clientes pudessem caber dentro do espaço do restaurante. Ora este trabalho era bastante pesado, sendo eu uma pessoa que desde os meus sete anos sempre sofri de uma doença dos ossos, as probabilidades eram mais que evidentes de vir a sofrer cada vez mais, como expliquei acima.
Apôs dois anos de trabalho no Casino, outubro de (1968), interrompi a vida que eu próprio escolhi por ter sido chamado para me apresentar no quartel de Infantaria 16 em Viseu.

“A História da minha vida Militar”

Passava por mim a grande velocidade o ano de (1967) e eu já com vinte anos no pêlo, fui obrigado pelo sistema político de então, a dar o nome para ser referendado e constar da lista dos gajos que estavam bons ou disponíveis para dar o coiro pelo país, pela Pátria ou fosse lá pelo que raio fosse. Era preciso que estivesse bom para matar ou morrer.


ILÍDIO RECRUTA EM VISEU
Neste caso era mais para dar o coiro para salvar o coiro de outros “filhos da mãe”, que viviam nas suas torres de oiro e nos seus castelos de diamantes.
Fosse como fosse, o que tem de ser tem muita força e como eu não tinha força nenhuma, tive de aguentar a pastilha e tive de ir dar o corpo ao manifesto.
Tendo dado o nome em (1967), fui chamado em (1968) para passar por uma inspeção como se faz aos cavalos para me verem se tinha dentes bons e patas sólidas, para me dizerem que estava bom tanto para matar como para morrer, mas que era muito melhor para morrer. Não era magrinho, mas também não era muito gordo e não muito alto, ou passava pelo intervalo das balas ou morria ao primeiro sopro de uma. Tanto fazia
Mandaram-me para Viseu onde me instalei no dia, 22 de outubro de (1968) num convento ou outra coisa qualquer e, onde me iriam fazer permanecer oito semanas a correr para trás e para diante, sem eu alguma vez saber onde é que íamos parar, a verdade é que nunca fui ter a lado nenhum. Normalmente durante estas oito semanas éramos preparados, manipulados e forjados psicologicamente para termos a ideia fixa deque o que estávamos a fazer era o melhor para o nosso país, para nós e para a nossa família, e eramos constantemente injetados com retórica a favor da guerra e que nós somos os bons e os outros eram os maus. Não quero, não posso nem devo com esta pequena crónica tentar escamotear o que era a guerra pela libertação nas antigas Colónias, nem quero deixar de lembrar o sofrimento que esta causou a centenas de milhares de homens e mulheres deste país.
Quis o destino, que é uma das poucas coisas em que ainda acredito, já que não tinha amigos ou conhecidos de alta patente no meio militar e nem no meio civil, que no fim da Especialidade tivessem dado a (Especialidade de Maqueiro). Talvez porque constava no meu curriculum empregado de mesa, mas não tenho a certeza se teria sido o motivo.
ESPECIALIDADE MAQUEIRO EM COIMBRA
E assim terminada a (Recruta e a Especialidade), sou destacado para Évora RAL 3, ao lado da capela dos ossos, e aqui fiquei impedido à enfermaria, até que o tempo me segurasse à espera da mobilização para as Colónias.
Um Maqueiro serve normalmente para ir buscar os soldados feridos e carregá-los às costas na zona de combate e trazê-los para a enfermaria de campo. Depois de 16 meses à espera que fosse mobilizado, parece-me que desta já te safaste Ilídio, não vais andar aos tiros e eventualmente não vais morrer, mas também não vais carregar ninguém à costa
Embora tivesse sido informado que o meu destino já estava traçado, já não ia para as colónias naturalmente porque estava lá o meu irmão Fernando, fui destacado três meses para fazer serviços no Forte de Elvas, para guardar o paiol, guardar a prisão, Piquete e segurança noturna, e assim foram passados os dias.

“Sinceramente não gostava nada da vida Militar”

Estávamos em junho de (1969) estava na altura de sujeitar-me a uma Junta Médica para ver se seria possível ficar livre da tropa. Passados três meses, lá estava eu diante do Júri onde no final recebo uma carta dizendo que tinha ficado auxiliar; é claro, foi uma deceção! Mesmo assim valeu a pena, talvez na próxima vá tentar novamente.
Esta vida da tropa cada vez estava a dar mais cabo de mim, dia apôs dia, ficava mais magro, estava mesmo desmoralizado. Eis que então, passados mais três meses, tornei a insistir noutra Junta Médica. E nesta tornei a ficar como auxiliar, mais uma vez fiquei muito desiludido e disse para comigo: Ilídio, não insistas mais… assim foi…
Quando saí do Hospital Militar, fui a pé até ao quartel, era mais ou menos um quilómetro, pelo caminho encontro no chão um rosário. Quando cheguei ao quartel vou até ao meu camarote e penduro-o na cabeceira da cama. Sou católico, mas não praticante, mas tive e tenho por hábito de rezar todas as noites. Nas minhas orações está sempre presente na minha mente: o Senhor do Bonfim, Nossa Senhora de Fátima e São Bartolomeu e dizia para comigo: já que não querem que saia da tropa, vou ficar até ao fim dos 36 meses, este era o tempo que tinha de estar a gramar até ao fim da tropa.
Mas não, redondamente estava enganado! Quando passado mais dois meses, o oficial dia, ao render da parada mencionou o soldado; 527 Ilídio C. Bartolomeu, presente, meu comandante! Apresente-se no Hospital Militar amanhã pelas 10 horas, nem me passava pela cabeça para o que seria, quando ali cheguei qual o meu espanto, era para uma Junta Médica, como já tinha perdido a esperança, fiquei surpreendido e de boca aberta! Mesmo na muche. Finalmente fiquei livre da tropa depois de gramar 18 meses. Estávamos em março de (1969) saí, mas tive ainda de pagar 1.200 escudos de taxa e fiquei inapto para todo o serviço militar.
1º RUSSO DO MAGALHÃES 2º ANTONONHO DE OUTEIRO 3º EUGENIO DO KINA
4º ILÍDIO 5º ANTÓNIO DE OUTEIRO
Veio então um sargento buscar-me num jeep para ir tratar das minhas coisas, entregar o que havia para entregar e pôr-me a andar para casa, gozar férias.

“O que me levou a entrar na Tropa Portuguesa”

Nada me levou a entrar para a tropa, entrei porque fui obrigado. Naquela altura eramos obrigados a ir à tropa. Toda a gente, ninguém escapava. Mas valeu pelo que se aprendeu e pelos momentos bons e maus.
Para finalizar deixei-me contar uma pequena história de outras tantas que ficarão para memória. Foi num dia de domingo de agosto abrasador, não tinha metido dispensa no dia anterior e, por isso não pude sair do quartel. Na parada havia um banco à sombra e fui sentei-me nele a descansar, outros colegas estavam a jogar a bola. 
Vem então o oficial dia, com uma barriga mais parecia uma bola e perguntou-me: Ó 527, o que estás aqui a fazer? Ó meu alferes, estou sentado à sombra descansar, ora como a parada era empedrada com seixos, criava muita relva por causa da humidade, vai daí manda-me pegar numa picareta e diz-me: vai rapar a relva da parada. Bem! Eu queria dizer-lhe que fosse pro ca****o, mas ó meu alferes; estão ali tantos a jogar a bola com tanto calor, manda-me a mim rapar a relva? Respondeu-me o alferes: pois é, mesmo por isso de não estares a fazer nada… Na tropa só se safa quem for reguila, brincalhão e já agora bufo...

“Tropa feita vida nova! Regresso ao trabalho no casino”

Como tralhava no Casino, comecei logo a trabalhar na profissão que já tinha, as férias eram 3 dias por cada ano de trabalho, mas como já trabalhava no casino anterior à tropa, tinha direito a gozá-los.
RESTAURANTE CASINO ESTORIL
Por isso mesmo deixei os três dias para as festas de São Bartolomeu, não dava para mais; era um dia para ir, outro para ficar à festa e outro dia para regressar, era assim nesse tempo,  até ao 25 de Abril, com três dias de férias por ano, só dava para estar presente numa, havia três festas, opção era escolher uma.

“Diz o ditado que não há uma sem duas”

Além de eu ter caído nas garras do Dr. Jota, também em 1970, onde o um dia o destino quis viesse a ser a minha esposa, o Dr. Jota operou-a tinha ela desaseis anos de idade, a uma apendicite, só que mais uma vez foi incompetente, em vez de apendicite era outra coisa muito pior, mas para não dizer nada,  ficou-se pelo silêncio e não alertou os pais. O Dr. Jota e os meus sogros eram de Bragança e conheciam-se muito bem. Mais tarde, consciente do que tinha feito, perguntou-lhes: como é que a vossa filha está de saúde?
RUA PRINCIPAL
Responderam: o Doutor mais valia ter sido sincero dizendo-nos toda a verdade. Naquele momento o Dr. Jota, pediu desculpas e mais desculpas, assumindo que errou, que não era apendicite, mas que também não sabia o que poderia ser, por isso não vos avisei para que fossem com ela a outro lado. Os meus sogros revoltados retorquiram: mas então porquê o Dr. não nos disse nada? Se tivesse dito o que se estava a passar, teríamos ido com ela para o Porto e saber o que realmente tinha, o Dr. preferiu fechar-se em copas, não foi? O Dr. continuava só a pedir desculpas.  A verdade é que a sua incompetência, podia ter custado a vida à nossa filha se não tivesse casado e o marido não a tivesse levado para Lisboa.

“É seguindo o exemplo do meu pai que tenho percorrido o caminho certo”

Do meu pai, lembro-me várias vezes, dizer-me com os seus olhos profundos e tristes de tanto trabalho: Ilídio, dá ponto de volta e faz as carcelas nestas calças.
Meu pai Adelino, era alfaiate, o (chastre de alcunha) era brincalhão, humorado, humano e familiar. Lembro-me do coração perfumado de meu pai Adelino e da sua habilidade firme, como a não querer revelar o seu sentimentalismo e a sua bondade. Relembro a sua alfaiataria com as suas prateleiras, carregadas de peças de pano, do balcão e da sua máquina singer. Lembro também como era espinhoso o seu trabalho principalmente no Verão
MEU PAI ADELINO "CHASTRE"
Mas eu gostava mesmo era do “chastre” cosendo na sua máquina de costura. Inesquecível aquele Adelino, às noites após o trabalho, saia para a taberna com a sua pequena bengala coxeando ao encontro dos seus amigos. Logo que pudesse, lá estava ele a fazer das suas partidas que mais adorava, meter as cascas dos amendoins e tremoços nos bolsos dos casacos domingueiros dos amigos que lhe mereciam confiança, sem eles se aperceberem.
Depois quando os amigos iam para casa, trocar de roupa metiam as mãos nos bolsos, encontravam as cascas, desconfiavam logo e diziam: “foi o agulha do chastre”. Era assim que os amigos depois lhe chamavam, por ser brincalhão e amigo dos seus amigos.

“Tudo aquilo que sou, ou pretendo ser, devo a um anjo, minha mãe”.

Da minha mãe com aquela bondade piedosa pedia-me: Ilídio meu filho, vai buscar um cântaro de água à fonte da Espadana que já não temos água para fazer o caldo.
MINHA MÃE MARIA GRANJO "TIRÓ"
Lembro-me, dentre tantas lembranças e nostalgias, dos Santos no céu amadeirado do oratório da minha mãe, do seu gosto de rezar e cantar e da sua voz firme dizendo assim e assim. Devota, de rosário de contas e promessas ao Senhor do Bonfim. Vivia para os Santos, para as rezas, para as igrejas, para abençoar quem passasse pela sua porta e para ver o mundo, ali sentadinha ao entardecer à porta de sua casa na rua. Em dias de missa, lá ia ela, toda miudinha, levando o rosário de rezas e crucifixos, de xaile escuro sobre a cabeça, possuía uma voz tão bela que os anjos se encantavam quando chegava à igreja. Minha mãe, a fina flor do meu coração. Sem outras palavras para descrevê-la, senão aquelas que dizem sobre a sua beleza, a sua doçura humana, o seu indistinto amor.
CEMITÉRIO DE ARGOSELO
Meu pai em 1985, minha mãe em 1987, partiram. Com eles, todo o meu fascínio da minha infância e de adolescente se extinguiu de ter ficado autenticamente desvairado.
Na cova que a terra os cobriu, ficou enterrada para sempre com eles a minha infância e de adolescente.
E eu, eu sou uma parte de tudo isso, uma prenda viva de laços familiares, ou aquele que tudo faz para jamais se afastar daquele jardim de onde floresci. Por isso, quando olho no espelho vejo-me em muitos. Naqueles outros e aqueles que nem sequer conheci, mas que em mim estão pela força hereditária.
A infância é o período no qual edificamos as bases que sustentarão tudo o que virá depois. É também um período mágico, onde o brincar e a imaginação constroem memórias afetivas cheias de significado que irão perdurar por toda a existência.
Venho pensado muito na minha infância, não com saudade ou saudosismo e nem com desejo que tudo tivesse sido diferente. Apenas tenho pensado. Pensado talvez para resgatar as lembranças da criança que fui, que pude ser, que me deixaram ser.
Tenho-me esforçado para lembrar pequenos momentos que podem ter definido a personalidade, os traumas, a visão do mundo e até a capacidade que hoje lido com a felicidade e com os momentos de frustração.

“A vida é um presente de Deus e o Casamento é o começo de uma nova relação”

Chegou o momento da vida em que conheci uma rapariga, vizinha de uns familiares meus em Bragança (1971), estava a gozar férias e fui vê-los, fixei-a de tal maneira, como se alguém tivesse passado pela minha mente e me tivesse dito: esta mulher vai ser a tua cara-metade! Depois disto, era claro que a solução só dependia de mim. A rapariga tinha acabado de ter feito uma operação à apendicite inventada pelo Dr. Jota!
RUA PRINCIPAL
Tinha acabado de sair do hospital uns dias antes, como ela estava tão frágil, eu não sabia como começar a conversar. Alguns homens têm dificuldade neste cenário, eu também me incluía neste rol sinceramente, esta matéria era sério de mais para a conquistar porque de facto, mesmo encolhida como ela estava deixava-me com os olhos em bico e coração despedaçado, se a minha timidez fosse ao ponto de desistir da mensagem que a minha mente recebeu.
Perante isto, só tinha de entrar na conversa e, entrei bem dizendo-lhe se conhecia os meus primos, conheço sim, são nossos inquilinos. A partir daqui foi a porta de entrada para lhe dizer que era muito bonita e outros gracejos como se gostaria de ficar como minha amiga, ela respondeu logo, porque não? É claro que para mim foi muito difícil quando não se conhece, torna-se mais fácil quando há algum relacionamento, não era o meu caso.
Mas realmente tinha de começar a conversar por algum lado, mesmo que levasse uma grande tampa.  Pelo contrário, fui muito bem correspondido, até pareceu que o destino queria a gente juntos para sempre. Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém, posso apenas dar boas razões que gostem de mim e ter paciência para que a vida faça o resto.

“Mulheres são deusas que nos fazem sonhar”

Foi um privilégio encontrar-te. Tudo aconteceu tão rápido e de repente, mas foi suficiente para eu nunca esquecer, imaginando momentos, viajando no tempo, criando uma vida em que estou contigo, sentindo-me triste e lento, quando percebo que não estás ainda perto de mim, porque és a metade que me faz falta aqui…
LARGO DO PRADO
Sim! Comecei logo a pensar no futuro e a planeá-lo de forma conjunta, seja para namorar algum tempo, casar e começar uma vida a dois…
Começar uma vida a dois, significa que o homem e a mulher, afirmam um para o outro o seu sentimento e a vontade que têm em construir e desfrutar de uma vida em comum. Assim, apostamos na partilha das tristezas, alegrias e emoções, dividimos o que temos e fazemos planos para o futuro, nomeadamente fazer a família crescer. Depois casados, o meu trabalho continua no Casino-Estoril, agora com mais responsabilidades e sempre à espera de que a minha vida profissional seja mais auspiciosa, até que os chefes um dia, achem que estou apto para desempenhar outra função no restaurante, como chefe de turno e ganhar mais algum dinheiro. 
Afinal de contas, eu fui encontrar quem estava a procurar, mas também quem estava a esperar por mim! E tive logo a perceção, que esta mulher tinha instinto adorável e fazia qualquer homem sofrer, logo descobri que o apaixonar era inevitável, de repente tive a intuição que devia tomar e seguir um caminho apôs este sonho, uma situação que se tornou na minha vida que o acreditar não acontece assim nem mais nem menos por acaso.
LARGO DA ESPADANA
Coincidência? Talvez sim, talvez não, mas que estávamos guardados um para o outro, parece não deixar dúvidas, que o sofrimento de ambos que passamos foi quase semelhante, também me faz pensar!

“Como ser reconhecido e promovido? Mostrando ser mais ambicioso”

Nunca refutei o trabalho, muito menos me refugiei na fama que os meus colegas que me queriam dar, pelo facto de ser da Terra do Patrão. Não! Podia até ter aproveitado, mas o meu caráter não era esse, preferi ter algum estatuto dedicando-me ao trabalho não faltando, porque um dia tinha gripe, outra vez porque me doía a barriga ou a cabeça, ou porque embirrei com este ou aquele colega, justificando-me depois com uma falta justificada médica. Não! Estava sempre presente, ganhando a confiança dos meus chefes, sem que nunca, mas mesmo nunca humilhasse ninguém, nem ninguém tivesse de dizer: olha!... Ele ultrapassou tudo e todos porque é o menino protegido dos chefes ou do Patrão.
Apesar de gozar dessa fama e privilégios, que os meus colegas tanto apregoavam, muitas vezes levava-me a querer que estava mesmo protegido por alguém. Mas se realmente era assim, então eu fui muito ingénuo, porque nunca fui beneficiado por esse alegado protetor. Posso declarar solenemente, se eu subi ou tinha algum estatuto, foi com o meu empenho dedicação e mérito próprio. Se podia ser mais favorecido, neste caso, lá isso podia, mas era preciso ter jeito e estômago para ser lambe botas, coisa que não ligava comigo.
Mas, se estavam a mencionar como penso que seria o meu protetor o Senhor Dr. Manuel Teles, administrador do Casino - Estoril, posso afirmar: que era um grande homem, um grande amigo meu, uma pessoa justa e faladora para com os empregados. Ao Sr. Doutor Manuel Teles, devo-lhe muitos favores pessoais. 


ILÍDIO CHEFE BARMAN
Ficar-lhe-ei grato toda a vida. Profissionalmente, pedi-lhe um favor e não me concedeu, ele lá sabia porquê, mas mesmo assim, nunca deixei de considerar o Grande, filantrópico que era. Subi na vida profissional, porque os chefes achavam que era merecedor e conhecedor da profissão e das obrigações
Depois sim! Passado algum tempo (1972), quando abriu a sala grande das máquinas, o Sr. Doutor Manuel Teles, mandou o Diretor Alifonso, falar comigo se queria ir chefiar o Bar das Máquinas, é claro! Não recusei, pelo contrário, fiquei bastante contente e agradeci. Dali a seis anos, comecei também a chefiar o Bar da Sala de Jogos.
Por tudo isto, pelo empenho, dedicação, lealdade, assíduo e bem-humorado, em (1996) fiz trinta anos de casa, tive o privilégio de ser laureado com um relógio de ouro, como prova de um funcionário exemplar. Foi a cereja no topo do bolo.

“Fiz tudo o que pude e estava a meu alcance em prol de Argoselo”

No entanto, grande parte das pessoas tem para além da vida profissional, um obi. Desde setembro (1966) comecei a gostar muito de áudio e vídeo. Fiz muitos filmes de 8mm, mas tornava-se muito difícil para os revelar, visto que se gastava muito dinheiro. Em (1980) apareceram as máquinas de filmar Beta e VHS. Claro, comprei uma, e desde então tornei-me num autodidata. Realmente tinha jeito para fazer coisas interessantes!
Se não sabem, ficam a saber, eu desde sempre fui um obstinado defensor por Argoselo e continuo a sê-lo. Então, achei que o projeto que eu tinha na cabeça para a minha terra seria um plano para o colocar mesmo em prática e assim aconteceu.
Comecei então a filmar tudo o que em Argoselo se fazia ao longo do ano, quando ia de férias. Fiz um filme e dei o título: (Usos, Costumes e Tradições) são oito capítulos todos comentados e escritos no (blogue São Bartolomeu Freixagosa) por várias pessoas da terra, com grandes conhecimentos das tradições de Argoselo. Este filme já foi exibido uma vez em (2015) nas festas de verão.
FILMAGENS DE ARGOSELO
Eu nunca tive uma presença forte online. Dito isto, no geral sempre fui indo, com mais ou menos dificuldade, mas o essencial eu fiz, e consegui colocar o nome de (Argoselo em todo o Mundo) graças às imagens e paisagens que gravei e pulas a circular na internet pelas redes sociais, meios de comunicação de grande alcance. Agora sim, a Minha Terra está no Mapa!
Deixo um vasto Património sobre Argoselo, para que gerações vindouras possam orgulhar-se desta rica herança, que os nossos antepassados nos deixaram. Gostava que esta geração mais nova, olhasse um pouco mais pela sua Terra, que fosse mais bairrista, sem azedumes ou murmúrios, haja só vontade e o querer disponibilizar-se. Nunca procurei protagonismo ou amizades por interesses, também não quero ser bajulado ou relevante, somente prestei um contributo à comunidade e à Terra que me Viu Nascer. Sempre expressei a minha preocupação perante pessoas, que só olham para o seu umbigo, sem que minimamente se preocupem com a comunidade.

“Na verdade, nem sempre estes momentos se tornam na vida, completamente desmoralizantes”

Tudo me estava a correr bem na vida um bom emprego, uma esposa admirável, tudo ela sabe fazer; cozinhar, costurar e com uma cultura geral muito razoável. Eis, que, quando menos se esperava, bateu à porta mais um infortúnio à minha esposa. Encontra-se doente apôs um mês de casados, foi internada no Hospital do Desterro, operada urgentemente a um mioma nos ovários. Lutou muito pela vida e pagou um preço muito alto.
RUA PRINCIPAL
Pode surgir sempre entraves no início desta nova fase da relação. Mas, independentemente de tudo isso, se houver muito amor, confiança, vontade e dedicação, decerto que tudo irá correr pelo melhor. A vida poderá ser um fardo insuportável quando alguém se agarra aos desgostos antigos, carregando todas as deceções do passado e quando as acrescenta às do presente. Mas se agimos com serenidade temos a prerrogativa de enfrentar os infortúnios da vida com mais facilidade e aceitação.
Sejam quais forem as contrariedades devem ser encaradas com naturalidade e resolvidas, com a mente serena e a alma em paz. Os infortúnios, ou seja, a desgraça, o azar, a desventura, a tragédia, o flagelo, a fatalidade, afligem a vida de todos os seres humanos. Não podemos evitar, nem prever, mas podemos tentar suavizar os seus efeitos devastadores. Com a consciência serena e corajosa, ajuda muito nesta tarefa, porque contra os infortúnios da vida a lamentação de nada adianta, somente agrava e retarda o problema, portanto, nestes momentos usei a sabedoria agindo com muita firmeza e controle.
A todos nos pode bater à porta. Muita gente pensa que as calamidades só acontecem aos outros, mas nem sempre é assim, quando menos se espera, estamos nós a cair nessa situação. Nunca se pode dizer - “desta água não beberei”. Mas, o meu lema era continuar a trabalhar e não ficar a chorar o leite derramado à espera que alguém faça por mim o que tenho de fazer eu.

“Sou cristão tenho fé faria tudo na mesma”

Deus quis que a Minha Mulher não tivesse filhos. Também aqui, o destino nos pregou mais uma partida e algumas dificuldades sim, mas além de tudo, somos muito felizes há quarenta e sete anos. Ao contrário do que parece, por tudo isso, criamos uma criança, com todo o carinho, independente de qualquer preconceito, hoje é uma mulher formada, casada e tem três crianças. Por tudo isto, juntando; sofrimentos, alegrias, criar uma filha de coração e ter três netinhos, vale a pena viver
SENHOR DO BONFIM
Se me perguntam: a tua vida foi então um oásis? Eu diria que sim! Se não vejam; por tudo o que passei, de bom e de mau, estar aqui vivinho da silva, com um pouco menos de saúde é verdade, mas ter concretizado todos os meus sonhos, projetos de vida e desejos de obis, foi para mim algo de satisfação, de uma conquista capaz de colmatar muitos momentos desagradáveis, que me aconteceram na vida.
Meus pais sempre me diziam que não existe situação, boa ou ruim, que dure para sempre. De facto, a nossa vida é feita de situações e momentos bons e ruins, de alegrias e tristezas, facilidades e dificuldades, dores e prazeres. Quando estamos vivendo uma época boa das nossas vidas poucas vezes nos damos conta, mas quando estamos em situações de dificuldades parece que será eterno e que não acabará nunca.
Entender que a vida tem altos e baixos não é tão difícil quanto aceitar essa realidade. Aceitamos muito fácil o bom momento, já os momentos ruins tendem reclamar, murmurar e muitas vezes nos desesperar. Quantos de nós, homens e mulheres, já não se sentiu assim, submersos nos problemas e dificuldades, sozinhos sem ninguém que nos estenda a mão e nos puxe para a superfície. Tal sentimento nos afunda cada vez mais e nos sentimos desesperados, deprimidos e sem esperança…

“Resistir às adversidades”

Em frente é que é o caminho. Enquanto trabalhei, as baixas médicas, tive-as por duas vezes, sempre por causa de ter de me submeter a intervenções cirúrgicas.
A primeira à apendicite, foi logo um mês depois de estar no Estoril e outra foi a partir dos meus 55 anos à coluna. Desde então, aqui estou a pagar tudo isso com limitações de mobilidade e sacrifício sem poder fazer nada.
RUA VALE DE MILHOS
Foi o fim da minha carreira profissional apôs 45 anos de trabalho sempre no Casino, sabendo que cumpri o meu dever, sem que tivesse de justificar uma falta sequer foi extraordinário, sem conflitos com os chefes, com os colegas ou quem quer que fosse. Talvez uma ou outra implicância passageira como é normal, quando se trabalha com muitos colegas, ou quando se está encarregue de secções e tem vários funcionários a seu encargo. Hoje encontro-me à mercê duma cadeira de rodas para me deslocar para qualquer sítio, e também ando a fazer hemodiálise. São os bombeiros que têm de me tirar de casa porque não tenho mobilidade nenhuma. Foram tempos, que não vou esquecer, os momentos bons, menos bons e maus, os convívios, almoçaradas e boas relações entre colegas e amigos, tudo isso agora me faz pensar o quanto a minha vida, tão feliz tão rica quanto de uma pessoa bem-sucedida. 
Sou Argoselense, além de tudo sou português nunca fugi às minhas responsabilidades, tanto no trabalho como na família. A família esteve sempre em primeiro lugar.

“Como conviver com a nostalgia”

Muitas pessoas fazem confusão entre nostalgia e saudade, não são sentimentos iguais. Somos sujeitos atravessados por saudades, já que ao longo da vida vamos deixando experiências, pessoas e prazeres para trás. A diferença dos nostálgicos, diz que além de sentirem saudade, entendem que o que tinham ou viviam no passado, era melhor do que o que têm e vivem no presente.
A nostalgia às vezes é vista como algo sentido apenas por quem tem um presente pobre de alegrias. Ela tem a sua importância. Tem a ver com a memória de um tempo que passou. Porque se as pessoas não puderem ter memória de tempos passados, das suas experiências e relações, acabam ficando como um arquivo vazio.
Todos nós estamos sujeitos a sentir essa mistura de tristeza e saudade quando deixamos para trás uma fase muito boa ou somos obrigados a fazer renúncias. Afinal, se nos abrirmos para outras novas situações não é fácil. Leva um tempo para nos adaptarmos às mudanças. Sempre que fazemos algum processo de transformação, por mais simples que seja, ou por mais que pretendamos esta alteração, experimentamos algum tipo de sofrimento.
A nostalgia é saudável quando traz lembranças de um passado bem vivido e ajuda a entender o presente. Mas se for muito intensa, pode até paralisar a vida, o que prejudica a memória que faz a pessoa ficar presa ao passado.
Portanto é necessário virar esta página para vislumbrar o brilho do presente. Para isso, preciso lidar com o que guardei dentro de mim sobre as pessoas ou situação que perdi.

 “As minhas vivências pessoais foram e são sempre iguais”

Apôs esta descrição, concluo que o saldo da minha vida tem sido muito positivo, só para exemplificar: Não imaginava ter uma casa confortável, uma esposa sempre ao meu lado ajudando-me nesta altura bem difícil da minha vida, um carro, gente que gosta de mim e tantas coisas boas que aconteceram. Que mais posso querer eu? A não ser um pouco mais de saúde!... Por tudo isto, digo novamente, valeu a pena viver!
VIVÊNCIAS COMO SEMPRE IGUAIS
A vida é uma aprendizagem. Todos os dias, todas as experiências foram importantes para o enriquecimento da minha vida pessoal e profissional. O importante é que a vida nos ensina de uma forma ou de outra, que o importante é viver, é fazer o melhor em qualquer momento, e isso só cabe a nós mesmos. Não perder a motivação só porque as coisas não estão a correr como o previsto. Adversidade gera sabedoria e foi isso que me levou ao sucesso.

Ilídio Bartolomeu


30-12-2019