sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

AS MELHORES MEMÓRIAS DA MINHA INFANCIA

                                                    1ª PARTE
ILÍDIO  15 ANOS


Chamo-me:
Ilídio Carvalho Bartolomeu

Nasci em Argoselo, concelho de Vimioso e Distrito de Bragança, no dia, 22 de dezembro, era o que dizia a minha mãezinha, mas estou registado e batizado em 18 de julho de 1947, iniciando assim o meu percurso na estrada da vida.
Fui o quarto filho dos meus pais. Nasci e logo a minha mãe se encontrou doente, tendo sido internada no Hospital Conde Ferreira no Porto, deixando-me aos cuidados do meu pai e amamentado pela Maria Gala “Padeira,” durante dois anos. Depois de se encontrar melhor, teve mais oito filhos, sendo que a última foi uma rapariga. Nasci no seio de uma família honesta e humilde e guardo muitas lembranças das brincadeiras de rua, entre pó, palha e lama com os meus irmãos, amigos e primos.
Alguns dias atrás, em conversa com amigos, abordávamos os lugares da nossa infância, fiquei com a ideia que a pó do tempo tinha acabado por apagar quase tudo. Inconformado, tomei a resolução em dois ou três dias, percorrer em pensamento os lugares e caminhos por onde a minha infância se tinha passado, na esperança de me reavivar aquele tempo…
A essência dos lugares, lá estão. Tudo o resto é um outro mundo que já nada me diz, nada tem a ver comigo. Faltam as pessoas, aquelas pessoas, para que tudo aquilo faça algum sentido. A oportunidade da passagem pelos lugares incitava-me à memória. Mas a memória agora prega-nos partidas. Hoje a minha infância, apenas guardo recordações dispersas, divididas faltando-lhes o fluir dos dias. Tudo me parece já tão longínquo tão distante! As gavetas da memória, outrora tão arrumadas desapareceram com o tempo. Apenas sobraram pequenas impressões sem nexo, desencontradas umas das outras.
RUA PADRE CRUZ
Eram os jogos de rua: da bilharda, à bucha-nova, do arco, do cântaro, do bilro, do berlinde. o comer a sopa de cebola e batata, o “mata bicho” o roubar o açúcar do armário, o ver fazer os cigarros ao meu pai, no mês de maio, mês de Maria, as idas ao terço à noite da minha mãe, o ir à rebusca das espigas, da azeitona, o nascimento da minha irmã mais nova e o caldo de galinha, o que bem me sabiam as batatas com bacalhau cozido, ou à espanholada, alegria e o rebuliço do fazer os fritos e doces no Natal, a alegria da caixa mágica a preto e branco, na taberna do SR. Carlos e da Sra. Antónia xu xu, os dias de inverno na alfaiataria do meu pai à braseira a ver fazer as calças e fatos, a catequese e catequistas, brincar no adro da igreja ao pião, o ir a regar a horta com o meu tio Porfírio. Já procurei muitas palavras para qualificar um tio. Até hoje nenhum me soou mais adequado do que “tesouro”. Quem tem tio querido sabe bem disso.
IGREJA MATRIZ
Este meu tio Porfírio querido, era um pouco pai, um pouco avó, um pouco irmão e um pouco muito, muito amigo. Ter um tio como este é a eterna tentativa de ser absolutamente tudo para alguém.
Meu tio Porfírio, cuidava de mim como pai, mimava como avó. Era assim o meu tio Porfírio. A caminhada que fazia para ir à festa de São Bartolomeu por vale magas por ser mais perto, as trovoadas de Verão e eu cheio de medo, enquanto a minha mãe orava aquela oração a Santa Bárbara que ela rezava nessas ocasiões:   Enfim…
Enterrado na palha e lama da rua, iniciei as minhas brincadeiras de criança. Era este todo o mundo que me rodeava, moldado com palha, água e terra. Era aí que decorriam as minhas brincadeiras, feitas de diabruras que pregávamos uns aos outros. Que me lembre, nunca tive brinquedos, com imaginação eu fazia os meus próprios com os carrinhos de linhas, tábuas, arame e cordel.  Lá me davam um ou outro por festa.  Éramos pobres
ANTIGA ESCOLA HOJE POSTO DA G.N.R.
Entre os sete e dez anos andava na escola, neste tempo vinham as cenas mais divertidas. Também neste tempo começava a época das frutas, ia às malapas, às cerejas, uvas, apanhar batatas e as castanhas. Eram as maravilhosas tardes de verão passadas no fradal, no ribeiro dos inverniços e no rio maçãs.
Como de verão a água na aldeia era pouca, o tanque público era pequeno para tanta gente e a água era também pouca, as mulheres, não tendo onde lavar a roupa, às vezes, juntavam-se cinco ou seis vizinhas em direção às ribeiras
De manhã, antes do romper da aurora, levantavam-se para fazer a merenda e ao nascer do sol, lá iam elas, com a sua roupa suja enfardado ou então nos burros, algumas acompanhadas dos seus filhos mais pequenos. Não lhes largávamos a roda das saias. Mas alguns mais ousados, organizávamos correrias para ver aquele que chegava lá primeiro.
RIO MAÇÃS
Só visto! Era uma autêntica alegria. E, no meio disto as nossas mães gritando: ó António, ó Ilídio, anda cá meu filho! Não corras tanto que o caminho é muito ao fundo e podes partir a cabeça e as pernas! Anda cá, ouviste? Ó alma danada! Onde ele já vai, olhem só, que correria! Este rapaz mete a minha alma no inferno. E a ladainha continuava, continuava… quanto mais falavam mais vontade tínhamos de andar. E, cansados arfando, chegávamos ao ribeiro. Deitávamos sobre as ervas secas na margem e nelas nos rebolávamos e revirávamos. Eram o nosso doce leito.
Estávamos no rio…. Era uma festa, de gritos e pulos. Só então, muito depois, ao fundo da curva de um carreiro é que elas apareciam de bacias à cabeça e mãos à cintura, caminhavam apressadas tagarelando umas com as outras, bem-dispostas para um dia árduo de trabalho à hora do calor. 
Como relatar este doce prazer de ver as nossas mães contentes, todas suadas pelo calor e pelo esforço de esfregar a roupa, conversando animadamente umas com as outras? E quando cantavam? Que vozes que elas tinham!
RIBEIRO DA ESPADANA
Foram poucas ou quase nenhumas as canções que me ficaram na memória, mas, passados que são tantos anos ainda não encontrei paz de alma e deslumbramento semelhantes, como quando sentado todo nu em cima duma pedra lavada pelas águas de inverno, sentia ao escutá-las. Eram vozes finas melodiosas que cantavam coisas da terra, do trabalho dos seus homens, os seus amores, ciúmes, ódios… Como tudo isto era belo!
 Não havia prazer mais delicioso… Depois desta pausa ia a ter com os outros que andavam a brincar. Então era vê-los!... Correndo uns atrás dos outros, percorríamos a zona toda, descalços. E neste frenesim delirante, cansado e exausto, vinha-me sentar ao pé de minha mãe. Ela, ao ver-me assim tão suado e com a cara em brasa, dizia-me: Ah meu patife, amanhã é que vai ser lindo, depois eu é que tenho de te aturar, meu malandro. Aí se me apanhas uma pneumonia que te mato
Mas não ligava ao que ela dizia. Deixava-a falar, falar… E, muito meigamente, já mais calmo e menos suado, dizia-lhe: Tenho fome, mãe, dê-me pão! Não, daqui a nada vamos comer. Deixa-te estar aqui quietinho ao pé de mim, só falta acabar de lavar as calças do teu irmão.
O BURRO A PASTAR
E, assim, lavada toda a roupa, sentados na erva, à volta das toalhas estendidas no chão só se viam rostos a escorrer suor, rubros, queimados pelo sol comendo sofregamente, com prazer.  Mas, depois da barriga cheia, ò pernas para que te quero! Brincávamos com tudo quanto encontrássemos e nos viesse à cabeça. Mas, o nosso jogo preferido, era o jogo das escondidas, realmente cada qual procurava o sítio mais disparatado para se esconder. Os meus preferidos eram as rochas. Pequeno e arisco, de olhar trocista e malandro, corria que só visto, quase nunca davam por mim.
Cansado de tanto correr longe delas, deitava-me à água, mas, como não sabia nadar mergulhava as pernas e a cabeça refrescando-me, mas como estávamos longe das nossas mães tínhamos medo de que nos batessem. Mas não, elas não nos batiam! Tinham lavado e enxugado a roupa, também se tinham lavado, aproveitando-se da nossa ausência. Uma vez enxutas, davam-nos o lanche, metiam tudo dentro das bacias e das cestas das merendas e assim iniciávamos a nossa viagem de regresso a casa.
MENINOS DO BAIRRO DE BAIXO
Estava terminado mais um dia passado no rio. O sol já se começava a pôr. A nossa alegria ainda permanecia. Mas o que se sentia mais nesses momentos, era pena de o dia ter corrido tão depressa. E tristonhos por termos de subir aquela encosta tão íngreme, quando estávamos tão cansados e exaustos, era bem um autêntico calvário. As pobres das nossas mães coitadas, estafadas ainda tinham de nos arrastar: a uns pelas mãos, a outros dizendo-lhes que se agarrassem às saias, ora repousando aqui, ora descansando acolá, chegávamos finalmente a casa. Comíamos uma sopa de couves com um carolo de pão e depois, cama. Dormia como um anjo, dizia minha mãe.
MENINOS A BRINCAREM NA RUA
Atualmente alguns jogos/brincadeiras da minha infância estão esquecidos e estagnados no tempo, pois a tecnologia acabou por interferir um pouco nesse esquecimento e claro as próprias pessoas também fazem por isso. Andamos tão focados no trabalho e na rotina, que só queremos algum descanso e acabamos por não ter paciência ou tempo para brincar com os mais pequenos. Nos dias de hoje, não sei se na escola ainda fazem algumas brincadeiras das que vou referir, tais como o jogo da macaca e o jogo das cruzes, enfim...
FESTAS DE NOSSA SENHORA DAS DORES E SANTA BÁRBARA
No verão vinham as festas, mais adolescente adorava saltar à corda, uma brincadeira tão simples, que na minha perspetiva achava divertido. Havia tantas brincadeiras e bem mais saudáveis que um ipad, telemóvel ou computador que realmente olhando para os tempos de agora, parece tudo muito superficial e fictício. Inventaram aplicações e jogos online para tudo, mas nada fará mudar o que em tempos eu valorizei imenso. O convívio com os amigos e estas brincadeiras divertidas em que o nosso tempo era ocupado com sorrisos, gargalhadas e muitas histórias por contar.
Por meio do jogo, compreendia o mundo à minha volta, aprendia regras, testava habilidades físicas, como correr, pular, aprender a ganhar e a perder. O brincar também desenvolvia a aprendizagem da linguagem e a habilidade motora.
As brincadeiras correspondiam à minha imaginação, brincava por necessidade e era fundamental ao meu desenvolvimento com o uso da imaginação em ação. O brincar desempenhava um papel importante na socialização com os demais, permitindo-nos aprender a partilhar, cooperar, comunicar e a relacionar fazendo prosperar o respeito pelo outro bem como a minha e autoestima tudo resumido aprender brincando.
FESTAS DE NOSSA SENHORA DAS DORES E SANTA BÁRBARA
Na interação, os adultos sempre tinham oportunidade de nos ajudar na elaboração das inquietações que surgiam durante a brincadeira, bem como enriquecer e estimular a nossa imaginação, despertando-nos ideias e questionando-nos para descoberta de soluções. Usando apenas a imaginação, eu conseguia resolver os mais variados tipos de situações. Bastava uma pedrinha para o mundo se transformar. É bom recordar e reviver o que em tempos já nos fez feliz :)
Ao longo destes anos, cada qual procurou uma vida melhor. Uns emigraram e outros estão espalhados por todo o País, mas essa amizade pura e desinteressada ainda se mantém, com aqueles que mantenho contacto. Como esse tempo me fascinou!
FESTA DE SÃO BARTOLOMEU
Nem só de histórias lindas vivi a minha infância. Mas passei muito tempo da minha vida alteando e lamentando as faltas e chorando as ausências. Por isso, estou resgatando tudo de bom que tive para me abraçar e me perdoar hoje, ser feliz hoje, agradecer o hoje, e como crianças costumam fazer, viver o hoje.

Engana-se quem pensa que o começo da vida é uma etapa que fica para trás depois que somos adultos. É um ciclo vivo, que volta e se renova. Ecos da criança que fomos continuam a repercutir dentro de nós no decorrer da vida.

Ilídio Bartolomeu


30-11-2019