Enquanto homem, não existo somente como criatura individual,
mas descubro-me membro de uma comunidade humana. Ela me dirige o corpo e a
alma, desde o nascimento até à morte. O meu valor consiste em reconhecê-lo. Sou
realmente um homem quando os meus sentimentos, pensamentos e atos têm uma única
finalidade: a comunidade e o seu progresso. A minha atitude social, portanto,
determinará o juízo que têm sobre mim, bom ou mau.
Há um momento na vida em que o tempo
deixa de ser apenas contagem e passa a ser medida. Não de dias, nem de anos,
mas de sentido. É quando as pessoas percebem, quase sem querer, que não está
mais correndo atrás da vida, está a caminhar dentro dela.
Quanto mais velhos ficamos, mais
entendo que o minuto é tudo o que realmente temos. Não o amanhã imaginado, nem
o ontem que insiste em voltar nas lembranças, mas esse instante silencioso que
se oferece agora. E ele passa, como um sopro que não se repete.
Curioso como, com o tempo, as
prioridades se vão despindo. Aquilo que antes apreciava o indispensável perde o
brilho, enquanto coisas simples ganham um valor quase sagrado. Um abraço
demorado, uma conversa sem pressa, a presença de quem permanece. No fim, não
são os bens que nos enriquecem, mas os laços que resistem ao desgaste dos dias.
Também é inevitável: os círculos
diminuem, os encontros ficam mais raros. Mas há uma paz nisso. Porque os que
ficam não estão por acaso — são raízes e não folhas. E com eles aprendemos que
quantidade nunca foi sinônimo de verdade.
Há ainda uma espécie de liberdade que
só o tempo concede. A de não reagir a tudo. A de escolher os próprios
silêncios. A de entender que nem toda a batalha merece ser travada.
Se me falassem hoje de uma fonte da
juventude, eu ouviria com um sorriso tranquilo. Não por descrença, mas por
escolha. Há beleza demais no caminho percorrido para desejar voltar ao início.
Cada marca, cada perda, cada conquista moldou quem sou — e apagar isso seria
perder a mim mesmo.
E, ainda assim, há algo
surpreendente: a sensação de que o melhor não ficou para trás. De que ainda há
vida por viver, palavras por dizer, sentidos por descobrir. Como se, apesar de
tudo, estivéssemos sempre a chegar.
Talvez seja por isso que, com o
passar dos anos, a oração se alonga. Há mais a agradecer, mais a reconhecer,
mais a confiar. A vida, que antes parecia infinita, agora é percebida como um
presente, frágil, raro e profundamente valioso.
E assim sigo, com menos pressa e mais
presença. Com menos certezas e mais gratidão. Entendo, enfim, que envelhecer
não é perder, é purificar. É deixar ir o
excesso para que reste apenas o essencial.
Às vezes, tudo o que precisamos é de uma frase certa, no
momento certo. O essencial,
descubro a cada dia, sempre fui simples.
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