Dizem que são animais bons e que na sua comunidade adoptam as crias orfãs,
alimentam-nas tal como as lobas que dão leite, dividindo sem violência as
presas que capturam, numa partilha orgulhosa. Mas o que perdura na memória, ainda
são os medos.
Vi-os numa noite de inverno quando ia a caminho de Outeiro, a casa dos
Bessas buscar uma bateria para a Professora Dona Maria Cepeda. Lá estavam eles olhos
que nem faróis e o”tio Mantino” que o tinha encontrado no Prado, ia para alto
de São Roque de gasómetro na mão ver a corriça onde pernoitava o rebanho se estava
bem fechada. Homem corajoso, tal que os lobos devem tal ter sentido que
desandaram.
Agora que o frio já chegou, traz à lembrança tempos passados, já lá vai
quase meio século, em que eles abundavam nas nossas terras, terror dos
rebanhos, dos pastores e gentes da aldeia. No pico do frio vestido de chuva,
gelo e neve, os rebanhos eram recolhidos a meio da tarde para prevenir... e na
ausência de presas, esfomeados, por vezes eles desciam até à aldeia por
caminhos e carreiros. Desciam atraídos pelo cheiro da recente matação dos
porcos, ainda dependurados nas traves da loja, escorrendo para a desmancha.
Andavam com fome e atrevidos, qual desafio entre homem e animal.
Alertados pelos intensos ganidos e rosnar dos cães, em casa fazia-se
silêncio, enquanto se sentia o cheiro da lareira, fechavam-se as portas e
janelas, com medo, medo esse que por vezes punha as pessoas
"sobocadas", arrepiadas e de cabelos em pé. Ficava-se de atalaia até
o uivar feroz do bicho e o seu bater das "castanholas", fosse
desaparecendo, largando a porta bem fechada da loja aonde o porco estava
guardado.
Para prevenir a vida dos cães, foram adoptadas coleiras pontiagudas ao
pescoço, como no caso do cão do “Tio Mantino”, maior em corpulência que os
lobos, mas nunca fiando!
Ilídio Bartolomeu
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