A violência contra a mulher não começa com uma bofetada. Começa quando o amor está já fora de controle e
a convivência gera medo. Em Portugal, houve avanços importantes.
A violência doméstica é considerada um crime público desde
2000. Isto quer dizer que não carece de uma apresentação de queixa por parte da
vítima e qualquer pessoa pode denunciar um caso e, assim, combater este crime.
No entanto, os números continuam altos. Registos oficiais
mostram 25 mortes no ano 2025, e centenas de queixas todos os anos. Há diferentes
formas de agressão: o assassinato de mulheres, crimes hediondos, física,
psicológica, sexual, patrimonial e moral. A violência física aparece com mais
frequência, mas quase sempre vem acompanhada de abuso psicológico. E este é o
mais difícil de aceitar. Ele não deixa hematomas visíveis, mas desgasta por dentro.
A violência psicológica instala-se aos poucos. Primeiro,
surgem críticas constantes. Depois, humilhações. Mais adiante, isolamento. A
mulher começa a duvidar da própria percepção. O agressor alterna momentos de
explosão com pedidos de desculpa e promessas de mudança. Esse movimento é
descrito como um ciclo: tensão crescente, agressão e uma fase de reconciliação
que parece amor, mas é apenas um intervalo antes da repetição.
Muitas vezes, o início da relação é tranquilo. As agressões
aparecem após a consolidação do vínculo, às vezes durante a gravidez, quando
mudanças na dinâmica do casal podem despertar sentimentos de posse e perda de
controle no parceiro. A violência não surge como um evento isolado, mas como um
processo contínuo.
Os impactos não se limitam ao corpo: insônia, ansiedade,
dificuldade de concentração, depressão e sintomas físicos persistentes são
comuns. Há relatos de mulheres, que passam a viver em constante estado de
alerta, como se o perigo estivesse sempre à espreita. Algumas desenvolvem
transtorno de stresse pós-traumático; outras relatam pensamentos suicidas. A
dor emocional infiltra-se na rotina, no trabalho, na forma de se relacionar com
os filhos e consigo mesma.
Existe também a dependência construída: financeira, emocional
e social. Em muitos casos, o agressor utiliza o patrimônio, os filhos ou a
própria imagem pública, para manter a mulher presa à relação. Ameaças ocultas,
manipulação e desqualificação corroem a autonomia. Não raro, a vítima passa a
acreditar que é demasiado, que provoca as discussões ou que não seria capaz de
viver sozinha.
Um ponto delicado é o reconhecimento da violência. Algumas
mulheres associam violência apenas a agressões físicas graves. Se não há marcas
visíveis, entendem como “normal”. Essa noção revela o quanto certas formas de
abuso foram naturalizadas culturalmente. A violência simbólica, verbal e
emocional muitas vezes é tratada como parte do quotidiano conjugal.
Separação não é simples. O agressor pode mostrar-se
arrependido, carinhoso e convincente. Pode dizer que vai mudar, pode colocar-se
como vítima. Esse jogo confunde e fragiliza ainda mais quem já está
emocionalmente abalada. Além disso, sair da relação, pode significar abrir mão
da estabilidade financeira, enfrentar julgamento social ou reorganizar toda a
vida.
A violência contra a mulher termina, quando há
reconhecimento do abuso, apoio da rede social e proteção efetiva. Termina, quando a mulher consegue reconstruir a sua autonomia e a sua percepção de si, como sujeita de direitos.
Não se trata de um fenômeno simples, não é apenas uma controvérsia
que saiu do controle. É uma dinâmica complexa que atravessa afetos, crenças,
expectativas do casamento. Enfrentá-la exige legislação, serviços de apoio e,
sobretudo, mudança cultural.
A pergunta “onde começa e quando termina” não tem resposta
única. Mas uma coisa é clara: começa no primeiro sinal de desrespeito que é
ignorado e só termina quando a violência deixa de ser tolerada, justificada ou
minimizada.
Blog Freixagosa

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