domingo, 8 de março de 2026

VIOLENÇA DOMÉSTICA CRIME PÚBLICO!


 

A violência contra a mulher não começa com uma bofetada.  Começa quando o amor está já fora de controle e a convivência gera medo. Em Portugal, houve avanços importantes.

A violência doméstica é considerada um crime público desde 2000. Isto quer dizer que não carece de uma apresentação de queixa por parte da vítima e qualquer pessoa pode denunciar um caso e, assim, combater este crime.

No entanto, os números continuam altos. Registos oficiais mostram 25 mortes no ano 2025, e centenas de queixas todos os anos. Há diferentes formas de agressão: o assassinato de mulheres, crimes hediondos, física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A violência física aparece com mais frequência, mas quase sempre vem acompanhada de abuso psicológico. E este é o mais difícil de aceitar. Ele não deixa hematomas visíveis, mas  desgasta por dentro.

A violência psicológica instala-se aos poucos. Primeiro, surgem críticas constantes. Depois, humilhações. Mais adiante, isolamento. A mulher começa a duvidar da própria percepção. O agressor alterna momentos de explosão com pedidos de desculpa e promessas de mudança. Esse movimento é descrito como um ciclo: tensão crescente, agressão e uma fase de reconciliação que parece amor, mas é apenas um intervalo antes da repetição.

Muitas vezes, o início da relação é tranquilo. As agressões aparecem após a consolidação do vínculo, às vezes durante a gravidez, quando mudanças na dinâmica do casal podem despertar sentimentos de posse e perda de controle no parceiro. A violência não surge como um evento isolado, mas como um processo contínuo.

Os impactos não se limitam ao corpo: insônia, ansiedade, dificuldade de concentração, depressão e sintomas físicos persistentes são comuns. Há relatos de mulheres, que passam a viver em constante estado de alerta, como se o perigo estivesse sempre à espreita. Algumas desenvolvem transtorno de stresse pós-traumático; outras relatam pensamentos suicidas. A dor emocional infiltra-se na rotina, no trabalho, na forma de se relacionar com os filhos e consigo mesma.

Existe também a dependência construída: financeira, emocional e social. Em muitos casos, o agressor utiliza o patrimônio, os filhos ou a própria imagem pública, para manter a mulher presa à relação. Ameaças ocultas, manipulação e desqualificação corroem a autonomia. Não raro, a vítima passa a acreditar que é demasiado, que provoca as discussões ou que não seria capaz de viver sozinha.

Um ponto delicado é o reconhecimento da violência. Algumas mulheres associam violência apenas a agressões físicas graves. Se não há marcas visíveis, entendem como “normal”. Essa noção revela o quanto certas formas de abuso foram naturalizadas culturalmente. A violência simbólica, verbal e emocional muitas vezes é tratada como parte do quotidiano conjugal.

Separação não é simples. O agressor pode mostrar-se arrependido, carinhoso e convincente. Pode dizer que vai mudar, pode colocar-se como vítima. Esse jogo confunde e fragiliza ainda mais quem já está emocionalmente abalada. Além disso, sair da relação, pode significar  abrir mão da estabilidade financeira, enfrentar julgamento social ou reorganizar toda a vida.

A violência contra a mulher termina, quando há reconhecimento do abuso, apoio da rede social e proteção efetiva. Termina, quando a mulher consegue reconstruir a sua autonomia e a sua percepção de si, como sujeita de direitos.

Não se trata de um fenômeno simples, não é apenas uma controvérsia que saiu do controle. É uma dinâmica complexa que atravessa afetos, crenças, expectativas do casamento. Enfrentá-la exige legislação, serviços de apoio e, sobretudo, mudança cultural.

A pergunta “onde começa e quando termina” não tem resposta única. Mas uma coisa é clara: começa no primeiro sinal de desrespeito que é ignorado e só termina quando a violência deixa de ser tolerada, justificada ou minimizada.

 Blog Freixagosa 

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