Por mais crível mesmo, é que já
tenha vindo aperceber por várias vezes, que o leitor saiba das minhas
convicções pelo “valor do local”. Inúmeras vezes e com vários propósitos aqui o
tenha escrito. Na verdade, acredito que a “Nossa Terra”, os seus recursos e
patrimónios, é o melhor que cada um tem além da família e amigos que,
curiosamente, também devem ser incluídos nesta mais-valia local. Quanto afirmo
e reafirmo esta ideia, convém deixar muito claro que ela não deve ser confundida
com o lugar comum “pensar e agir local”. Pelo contrário, esta ideia tem
contribuído para desmascarar a coisa, isto é, o dito, cada vez mais intocável e
inexistente, pois só serve para ir aguentando um modelo a todos os níveis
absurdo e insustentável. Por muitas habilidades que se possam fazer, dá uma
enorme ajuda, todos compreendemos que esta “verdade” em que temos vivido tende
rapidamente para o fim.
O conjunto de crises, moral,
social, económica, financeira e outros, que nos têm batido à porta, anunciam-no
inequivocamente. Embora com erros ortográficos, já aqui escrevi alguma coisa
sobre o incontornável decrescimento da Vila de Argoselo. Será mesmo possível
acreditar num crescimento ao longo dos próximos anos? Como? Tenho duvidas. Este
é o “milagre”, pois perde-se a noção dos limites. A realidade vai-nos obrigar,
mesmo que alguns (muito poucos) dos confortavelmente sentados neste “modelo ” o
não querer a mudar de vida por razões óbvias. É aqui que vamos voltar a ter que
contar com o que “temos à mão”, isto é, com os recursos e saberes locais. Para
além do imaginável, o mais provável é termos que recordar muito do que,
entretanto, fomos esquecendo, sem sabermos hoje de forma clara o que isto
significa.
Parece-me certo e seguro que quem souber viver
e tirar partido da terra, em todos os seus sentidos e valores, vai ser rico.
Estes serão os verdadeiros novos-ricos. Vamos voltar a sentir melhor as
estações do ano e a fazer contas à maior ou menor quantidade das coisas disponíveis
para os diferentes usos. Embora possa parecer, este não é um discurso
retrógrado e obtuso, é antes a realidade que nos está a bater à porta. Dizer
que vivemos numa Terra onde todos dizem à boca cheia têm muito dinheiro, não
pode ultrapassar a capacidade de reabilitação do diálogo. É algo demasiado
óbvio para ser ignorado por mais tempo. Por esta e outras, que daqui decorrem,
convido o governo local a pensar, cada vez mais, numa palavra que é a solução
para muitas das crises que atualmente assolam a Vila de Argoselo, a proximidade.
Redes de partilha de recursos e saberes próximos são no que nos devemos focar
de forma a assegurar um futuro possível.
Numa lenta agonia, o modelo atual vai debater-se
acenando com palavras vans e magia de que isto tudo se vai resolvendo. Sem
extremar o discurso o caminho tem de ser o da suficiência local, apesar de tudo
o que de duro e até má memória, esta expressão possa ter.
Felizes aqueles, quanto mais depressa e sem
demora, decidam por uma outra solução que mais interesse os objetivos da Vila
de Argoselo e a de todos Argoselenses…
Seria bom se assim fosse possível!...
Já…
Ilídio Bartolomeu

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