AUTOBIOGRAFIA
Chamo-me Ilídio
Carvalho Bartolomeu.
Nasci
em Argoselo, concelho de Vimioso e Distrito de Bragança, entre o dia, 22 e 23
de dezembro, era o que me dizia a minha mãezinha, mas o certo é que estou
registado em 18 de Julho de 1947, iniciando assim o meu percurso na estrada da
vida.
Fui
o quarto filho dos meus pais. Nasci e logo a minha mãe se encontrou doente,
tendo sido internada, deixando-me aos cuidados do meu pai e amamentado pela
Maria Gala “Padeira,” durante dois anos, depois de se encontrar um pouco melhor,
teve mais uns 7 ou 8 filhos, sendo que a última foi uma rapariga.
Nasci
no seio de uma família humilde e guardo muitas lembranças das brincadeiras de
rua com os meus irmãos, amigos e primos.
Um caso incomodativo…
Entrei
no ensino primário tinha eu 7 anos, e porque ainda era muito pequenino, posso
dizer que tive algumas boas lembranças no primeiro ano. Passei para a segunda
classe e, a partir daqui suspendi os estudos na escola. Desde aí, fui um menino
muito amargurado, por tudo o que me aconteceu, explico:
A coisa mais cruel é que alguém, pode deixar e
permitir que outra pessoa imponha o que quer fazer a alguém...
Este caso aconteceu comigo quando eu tinha
ainda sete anos de idade, tratou-se de um caso muito cruel e malvadez, quando
não queria ser agarrado por um adulto de 18 anos e me prendeu uma corda à
cintura, levando-me pela estrada arrastado, ao ponto de ficar com uma das
pernas toda esfolada, e que apenas em três dias ficou tão inflamada, tive que
ser internado e submetido a uma operação cirúrgica muito grave, o que me valeu
a permanência de um ano e 24 dias hospitalizado, o que me ia custando a
amputação da perna. Graças a Deus isso não veio acontecer, consegui seguir em
frente, fui capaz de aguentar e continuar tentando resistir com todas as minhas
forças. Assim, consegui ultrapassar essa crueldade, mas que me deixou marcado
para toda a vida.
Audácia e firmeza…
Mas, com tudo isto, eu
tinha que continuar os estudos na escola primária, pelo menos para concluir a
quarta classe, mas eu que já tinha nove anos, envergonhava-me de começar na
segunda classe. Vai daí, então falei com a contínua da escola, que na altura
era a menina Augusta Fona. Reclamei que não queria ir frequentar a segunda
classe, pedi-lhe então para me matricular na terceira classe e que não a iria
deixar mal vista, como veio acontecer. Por sinal, até fui um dos melhores
alunos até à quarta classe. Os meus colegas de escola chamavam-me “o marreco”
porque tinha as pernas arcadas, por ser um pouquinho gordo e corria muito à
“buxa nova”, um jogo tradicional. Pois a minha alimentação não tinha como ser
gordinho, porque de facto eu, era e continuo a ser bastante esquisito nas
comidas.
Aqui sim, posso dizer
que tive boas recordações, a minha infância começou-me a devolver toda a
felicidade que tinha sido interrompida. Também, para além das brincadeiras e
traquinices, recordo-me do que os meus pais me transmitiam valores muito importantes: a honestidade, humildade,
amizade, entre outros. Confesso, que fui um pouco rebelde para com a minha mãe e
por motivos que agora não interessa, não vou nem quero evocar, mas esquecer
estes episódios tristes e pedir-lhe arrependimento e perdão.
Ainda não sabia o que queria...
Concluído o ensino
primário, aos 12 anos de idade, comecei a ser diferente, tornei-me um pouco
mais autónomo e responsável. Era bem comportado, mas um pouco tímido, fiz
amigos, alguns ainda se mantêm, mas, poucos, porque cada um seguiu a sua a vida
e eu fiquei por aqui, porque tinha que ajudar os meus pais. A partir daqui, o meu quotidiano de vida, nunca foi dos
melhores, a vida do interior, foi sempre bem sofrida, falta de água, fome, casa
muito precária, enfim, só eu sei o dia-a-dia complicado em que vivia. Fui uma pessoa
comum, como qualquer outro pré-adolescente da aldeia de Argoselo, tinha sonhos,
objetivos, mas nem sempre tive as mesmas oportunidades como outros que tinham
os pais com mais posses financeiras.
Comecei a trabalhar cedo e ter
responsabilidades. Aos 14 anos eu já estava nas estradas e florestas com
enxadas e picaretas ao sol árduo da meia tarde. Mais tarde fui para as minas,
onde andava a trabalhar enterrado de lama até à cintura. Todo esse sacrifício
para ganhar 120 escudos por mês, para fruto de um pão e uma malga de caldo à
noite ao jantar, um arroz e feijão ou batatas ao almoço. Nem sempre tive o que
comer, ia muitas vezes para a cama com a barriga roncando, e com o pensamento,
de que ao amanhecer tinha que acordar. Comia um simples carolo de pão e ia
novamente para mais um cansativo dia de trabalho. Tudo isto porque não queria
seguir a profissão do meu pai, que era alfaiate.
Tomei uma decisão...
Neste
período de pré-adolescência, de mudança, de dúvidas, de curiosidades, inicia-se
uma nova etapa. Decidi ir trabalhar para o Estoril, em 1965. Fui sozinho sem
conhecer ninguém. De início foi um pouco
complicado, senti-me sozinho e triste.
Para quem ache que, só
sofri, está enganado, também tive os meus momentos de lazer e entretenimento,
quando me foi proporcionado um emprego no Casino Estoril. Esses momentos foram
alguns felizes, outros também foram bastante duros; primeiro comecei a lavar
pratos e copos durante um ano. Ao mesmo tempo fui tirar o curso de empregado de
mesa em Lisboa. Depois sim, passei a trabalhar como empregado de mesa no
restaurante, aqui trabalhava-se muito, servíamos muitos banquetes de 800, 900 e
até 1200 pessoas. Além disso, os empregados de mesa tinham que ser também
estivadores, o que quer dizer, que tínhamos que andar a transportar as mesas
bem pesadas às costas e colocá-las de maneira que os clientes pudessem caber
dentro do espaço do restaurante. Ora este trabalho foi bastante pesado, sendo
eu uma pessoa que desde dos meus sete anos sempre sofri de uma doença dos
ossos, as probabilidades eram mais que certas de vir a sofrer cada vez mais, como
expliquei acima.
A
vida é um presente de Deus e o casamento é o começo de uma nova vida…
Chegou um momento na vida em que conheci uma
pessoa quando no ano de 1971 fui de férias e visitei uns familiares em
Bragança. Fixei-a de tal maneira, como se alguém tivesse passado pela minha
mente e me disse: esta vai ser a tua cara-metade! Depois disto, era claro que a
solução só dependia de mim. Mas como começar a conversar? Alguns homens têm
dificuldade nesse cenário, eu também me incluía neste rol muito sinceramente,
quando este assunto era sério para a conquistar, porque de facto, ela
deixava-me os olhos em bico e o coração despedaçado se a minha timidez fosse ao
ponto de desistir da mensagem que a minha mente recebeu.
Perante isto, só tinha que entrar na conversa
e entrei bem, dizendo-lhe se conhecia os meus primos. A partir daqui foi a
porta de entrada para lhe dizer que era muito bonita e outros gracejos como se gostaria
de ficar como amiga. É claro que para mim foi muito difícil, porque quando se
conhece alguém há algum tempo e se tem algum relacionamento, torna-se mais
fácil, não era o meu caso. Mas realmente tinha que começar a conversar por
algum lado, mesmo que levasse uma grande tampa. Pelo contrário, fui muito bem
correspondido, até pareceu que o destino queria a gente juntos para sempre. Aprendi
que não posso exigir o amor de ninguém, posso apenas dar boas razões que gostem
de mim, e ter paciência para que a vida faça o resto.
Foi um privilégio encontrar-te. Tudo
aconteceu tão rápido e de repente, mas foi suficiente para eu nunca esquecer,
imaginando momentos, viajando no tempo, criando uma vida em que estou contigo,
sentindo-me triste e lento, quando percebo que não estás ainda perto de mim,
porque és a metade que me faz falta aqui…
Sim! Comecei logo a pensar no futuro e a
planeá-lo de forma conjunta, seja casar, e de começar uma vida
a dois.
Começar uma vida a dois,
significa que o homem e a mulher, afirmam um para o outro o seu sentimento e a
vontade que têm em construir e desfrutar de uma vida em comum. Assim,
apostamos, na partilha das tristezas, alegrias e emoções, dividimos o que temos
e fazemos planos para o futuro, nomeadamente fazer a família crescer. Depois casados, o meu
trabalho continua no Casino-Estoril, agora com mais responsabilidades e sempre
à espera que a minha vida profissional seja mais auspiciosa, até que os chefes
um dia, achem que estou apto para desempenhar outra função no restaurante, como
chefe de turno e ganhar mais algum dinheiro. No final de contas, eu fui encontrar quem
estava a procurar, mas também quem estava a esperar por mim! E tive logo a perceção,
que esta mulher tinha instinto adorável e fazia qualquer homem sofrer... logo descobri que o apaixonar era
inevitável, e de repente tive a intuição que devia tomar e seguir um
caminho apôs este sonho, uma situação que se tornou na minha vida que o acreditar
não acontece por acaso. Coincidência? Talvez sim… talvez não… mas que estávamos
guardados um para o outro, parece não deixar dúvidas, que o sofrimento de ambos
que passamos foi quase semelhante, também me faz pensar!
Como ser reconhecido e promovido?
Mostrando todo o meu potencial no trabalho e
ser ambicioso…
Nunca refutei o trabalho,
muito menos me refugiei na fama que os meus colegas que me queriam dar, pelo
facto de ser da Terra do Patrão. Não! Podia até ter aproveitado, mas o meu
caráter não era esse, preferi ter algum estatuto dedicando-me ao trabalho não
faltando, porque um dia tinha gripe, outra vez porque me doía a barriga ou a
cabeça, ou porque embirrei com este ou aquele colega, justificando-me depois
com uma falta justificada médica. Não! Estava sempre presente, ganhando a
confiança dos meus chefes, sem que nunca, mas mesmo nunca humilhasse ninguém,
nem ninguém tivesse que dizer: olha!... Ele ultrapassou tudo e todos porque é o
menino protegido dos chefes ou do Patrão.
Apesar de gozar dessa fama e privilégios, que
os meus colegas tanto apregoavam, muitas vezes levava-me a querer que estava
mesmo protegido por alguém. Mas se realmente era assim, então eu fui muito
ingénuo, porque nunca fui beneficiado por esse alegado protetor. Posso declarar
solenemente, se eu subi ou tinha algum estatuto, foi com o meu empenho
dedicação e mérito próprio. Se podia ser mais favorecido, neste caso, lá isso
podia, mas era preciso ter jeito e estomago para ser lambe botas, coisa que não
ligava comigo.
Mas, se estavam a mencionar
como penso que seria o meu protetor o Senhor Dr. Manuel Teles, administrador do
Casino - Estoril, posso afirmar: que era um grande homem, um grande amigo meu,
uma pessoa justa e faladora para com os empregados. A esse Senhor Dr. Manuel
Teles devo-lhe muitos favores pessoais. Ficar-lhe-ei muito grato toda a minha
vida. Profissionalmente, pedi-lhe um favor e não mo concedeu, mas mesmo assim,
nunca deixei de considerar o Grande Homem Humanista, que era. Subi na vida
profissional, porque os chefes achavam que era merecedor.
Tudo fiz em prol de Argoselo, Minha Terra Natal…
No entanto, grande parte das
pessoas tem para além da vida profissional, um obi. Desde 1966 comecei a gostar
muito de áudio e vídeo. Fiz muitos filmes de 8mm, mas tornava-se muito difícil
para os revelar, visto que se gastava muito dinheiro. Em 1980 apareceram as
máquinas de filmar Beta e VHS. Claro, comprei uma, e desde então tornei-me num
autodidata. Realmente tinha jeito para fazer coisas interessantes!
Se não sabem, ficam a saber,
eu desde sempre fui um obstinado defensor por Argoselo e continuo a sê-lo. Então,
achei que o projeto que eu tinha na cabeça para a minha terra seria um plano para
o colocar mesmo em prática e assim aconteceu.
Comecei então a filmar tudo
o que em Argoselo se fazia ao longo do ano, quando ia de férias. Dei o título
ao filme: (Usos, Costumes e Tradições)
são sete capítulos todos comentados e escritos no (blogue São Bartolomeu Freixagosa) por várias pessoas da terra, com
grandes conhecimentos das tradições de Argoselo. Este filme já foi exibido uma
vez em 2015 nas festas de verão.
Eu nunca tive uma presença
forte online. Dito isto, no geral sempre fui indo, com mais ou menos
dificuldade, mas o essencial eu fiz, e consegui colocar o nome de (Argoselo em todo o Mundo) graças às
imagens e paisagens que gravei e pulas a circular na internet pelas redes
sociais, meios de comunicação de grande alcance. Agora sim, a Minha Terra está no Mapa! Deixo um vasto Património
sobre Argoselo, para que gerações vindouras possam orgulhar-se desta rica
herança, que os nossos antepassados nos deixaram. Gostava que esta geração mais
nova, olhasse um pouco mais pela sua Terra, que fosse mais bairrista, sem
azedumes ou murmúrios, haja só vontade e o querer disponibilizar-se.
Nunca procurei
protagonismo ou amizades por interesses, também não quero ser bajulado ou relevante, somente prestei um contributo
à comunidade e à Terra que me viu Nascer.
Sempre expressei a minha preocupação perante pessoas, que só olham para o seu
umbigo, sem que minimamente se preocupem com comunidade.
Resistir às diversidades…
Tudo me estava a correr bem
na vida, um bom emprego, uma esposa admirável, tudo ela sabe fazer; cozinhar,
costurar e com uma cultura geral muito razoável. Eis, que, quando menos se
espera, o infortúnio bateu-nos à porta. Na verdade, nem sempre este momento
importante da vida se torna completamente perfeito e ideal. Pode aparecer
sempre entraves no início desta nova fase da relação. Mas independentemente de
tudo isso, se houver muito amor, confiança, vontade e dedicação, decerto que
tudo irá correr pelo melhor.
A vida poderá ser um fardo insuportável,
quando alguém se agarra aos desgostos antigos, carregando todas as deceções do
passado e quando as acrescenta às do presente. Mas se agimos com serenidade temos a prerrogativa de
enfrentar os infortúnios da vida com mais facilidade e aceitação. Todos os
infortúnios devem ser encarados com naturalidade e resolvidos, com a mente
serena e a alma em paz.
Os infortúnios, ou seja, a desgraça, o azar, a
desventura, a tragédia, o flagelo, a fatalidade, afligem a vida de todos os
seres humanos, Não podemos evitar, nem prever, mas podemos tentar suavizar os seus
efeitos devastadores. Com a consciência serena e corajosa, ajuda muito nesta
tarefa, porque contra os infortúnios da vida a lamentação de nada adianta,
somente agrava e retarda o problema, portanto, nestes momentos usei a sabedoria
agindo com muita firmeza e controle.
A todos nos pode bater à
porta. Muita gente pensa que as calamidades só acontecem aos outros, mas nem
sempre é assim, quando menos se espera, estamos nós a cair nessa situação.
Nunca se pode dizer - “desta água não beberei”.
Mas, o meu lema era
continuar a trabalhar e não ficar a chorar o leite derramado, à espera que
alguém faça por mim o que tenho de fazer eu. É começar de início e levantar a
cabeça. Em frente é que é o caminho. Enquanto trabalhei, baixas médicas, estive
por duas vezes, e sempre por causa de ter que me submeter a intervenções
cirúrgicas. A primeira à apendicite, foi logo um mês depois de estar no Estoril
e outra foi a partir dos meus 55 anos à coluna. Desde então, aqui estou a pagar
tudo isso com limitações de mobilidade e sacrifício sem poder fazer nada.
Tudo bem, quando tudo termina bem!...
Foi o fim da minha carreira profissional apôs
45 anos de trabalho sempre no Casino, sabendo que cumpri o meu dever, sem que
tivesse justificar uma falta sequer o que é extraordinário, sem conflitos com
os chefes, com os colegas ou quem quer que fosse. Talvez uma ou outra
implicância passageira como é normal, quando se trabalha com muitos colegas, ou
quando se é encarregado de secções e tem vários funcionários a seu encargo. Por
tudo isto, pelo empenho, dedicação, lealdade, assíduo e bem-humorado, aos 30
anos de casa fui recompensado com um relógio como prova de um funcionário
exemplar.
Foram tempos, que não vou
esquecer, os momentos bons, menos bons e maus, os convívios, almoçaradas e boas
relações entre colegas e amigos, tudo isso agora me faz pensar o quanto a minha
vida, tão feliz, tão rica quanto de uma pessoa bem-sucedida. Sou Argoselense,
mas além de tudo sou Português e nunca fugi às minhas responsabilidades, tanto
no trabalho como na família. A família esteve sempre em primeiro lugar.
Sou Cristão…Tenho Fé… Faria tudo na mesma, menos um
certo episódio…
Deus quis que a Minha Mulher
não tivesse filhos. Também aqui, o futuro nos pregou mais uma partida e algumas
dificuldades, além de tudo, fomos e somos muito felizes há quarenta e quatro
anos. Ao contrário do que parece, por tudo isso, criamos uma criança, com todo
o carinho, independente de qualquer preconceito, hoje é uma mulher formada,
casada e tem três crianças. Por tudo isto, juntando; sofrimentos, alegrias,
criar uma filha de coração e ter três netinhos, vale a pena viver.
Se me perguntam: a tua vida
foi então um oásis? Eu diria que sim! Se não vejam; por tudo o que passei, de
bom e de mau, estar aqui vivinho da silva, com um pouco menos de saúde é
verdade, mas ter concretizado todos os meus sonhos, projetos de vida, e desejos
de obis, foi para mim algo de satisfação, de uma conquista capaz de colmatar
muitos momentos desagradáveis, que me aconteceram na vida.
As
minhas vivências pessoais foram iguais às de tantas outras pessoas, aprendi e
desaprendi como toda a gente.
Apôs esta discrição, concluo
que o saldo da minha vida tem sido muito positivo, só para exemplificar: Não imaginava
ter uma casa confortável, uma esposa sempre ao meu lado ajudando-me nesta
altura bem difícil da minha vida, um carro, gente que gosta de mim e tantas
coisas boas que aconteceram. Que mais posso querer eu? A não ser um pouco mais
de saúde!... Por tudo isto, digo novamente, vale a pena viver!
Ilídio Bartolomeu
Estoril, 28-3-2017