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| Calvário |
Temos de fazer as pazes com o nosso passado. Isto não significa
que não o recordemos. Só não podemos tê-lo diante de nós, porque nos
paralisaria! Não nos deixaria viver. O truque é mantê-lo ao nosso lado. Deste
modo, tornar-se-á nosso aliado, ajudar-nos-á a não repetir os erros já
cometidos
Devido
a factos deste tipo, dentre outros como hábitos e costumes que podemos ter
herdado de um antepassado, acredito ser fundamental que conservemos e
compartilhemos quaisquer tipos de recordações sobre os nossos antepassados,
seja ela relevante ou não, para que possamos ajudar a ‘’desvendar’’ e por fim
sabermos mais sobre nós mesmos e as nossas gerações vindouras.
A Aldeia, com o
nome Argoselo, foi uma terra de grandes negociantes. Falemos pois destes
verdadeiros negociantes chamados de peliqueiros. Enquanto criança foram eles
que mais recordações me deixaram na memória lembranças de contos e ditos.
Nesta
comunidade de peleiros, havia uns mais espertos do que outros. Quando os menos
espertos queriam, chegavam mais rápido ao local com um burro velho do que os
mais espertos com um bom macho, Como se sabe, este era o meio de transporte
usado por estes comerciantes.
Todos
começavam muito novos, alguns não sabiam ler nem escrever mas faziam contas
como o melhor professor, aprenderam só com a lição chamada: a lição da Vida.
Quando
o tempo estava desagradável, o que não lhes permitia sair para fazerem os seus
negócios, juntavam-se e punham as suas conversas em dia.
Já
quando estava bom tempo, aí, já ninguém os parava! corriam todo o Nordeste
Transmontano de quintas a aldeias de vilas a cidades aos quinze dias, fora dos
seus familiares. Circulavam batendo de porta em porta numa grande azáfama para
ver quem chegava primeiro a fazer todo o tipo de negócio, além do principal que
eram as peles, de ovelha, cordeiro, vitela, raposa, coelho e até lobos e cães,
também negociavam em ferro velho, carniçoilo e lã etc.,. tudo isto em troca por
produtos que levavam ou por dinheiro.
Estas
pessoas por vezes enfrentavam as agruras do tempo e faziam grandes sacrifícios,
não tinham hora marcada, saíam de noite à chuva, ao frio com gelo e neve,
também com alguma fome e pouca roupa. Faziam muitos quilómetros sem saber o que
lhes esperava, muitas das vezes sem destino e como se isso não bastasse, na
volta o negócio foi fraco ou nenhum, mas traziam risos e outros choros e
queixos baixos de tristeza. Quando eram bem-sucedidos aí então; comentavam
dizendo que esta volta foi gratificante e, quando assim éra: cantavam, riam de
alegria e falavam de negócios, por fim chegavam satisfeitos,
As
suas esposas ansiosas estavam à espera que chegassem. A primeira pergunta para
o marido era: então “Pantomina” calhou-te bem o negócio desta vez? Sim mulher!
e
toda a família começava a descarregar as cargas de material que traziam em cima
dos animais. Quando o sucesso do negócio era auspicioso, tornava-se numa grande
alegria e festa para toda a família.
Após
um dia de descanso, vestiam umas calças e camisa lavadas com cheirinho a sabão,
os sapatos engraxados com sebo, logo iam à procura de comprador para a sua carga. Pois, não era difícil encontrar
quem quisesse comprar, ainda mal estava a chegar ao largo da praça, já estavam
a perguntar:
C
- Então compadre, viestes de fora? …
P
-Sim compadre! Cheguei ontem e trouxe uma boa carga! Quereis comprar alguma
coisita?
C
-Vós nunca me vendeis nada! sois muito careiro!
P
-Óh Seu Car***** vos, é que não me mandais o valor justo! - Quereis as coisas dadas…
P
–Quereis vir comigo a casa ver que trouxe boa carga e matais lá o bicho?
P
-Quando chegaram a casa, logo gritou à sua mulher:
P
- Óh rapariga, trás lá aguardente e dois figos que está aqui o compadre!..
Esposa -
Os figos acabaram e a aguardente também não ai! - Tu trouxeste alguma de fora?.
P
– Olhai compadre… o mata-bicho fica para a próxima…
.
Esta
rotina de vida de Peleiro era o meio de sobrevivência destes negociantes.
Praticamente todos habitavam no Bairro de Baixo, ali nasceram e criaram os seus
filhos, uns com mais ou menos fartura e outros com alguma fome…
Como
era um meio de vida muito difícil, os filhos destas pessoas começaram a emigrar
também, com muitas dificuldades e com muitas saudades desta rotina que ainda
hoje, reconhecem que foram peleiros com muita honra.
De
agricultura percebiam pouco, e o interesse também não era muito porque o cheiro
às peles era lhes mais forte.
Queriam
chegar a casa e ter a sua refeição na mesa, mas largar o dinheiro para comprar
coisas, não era com eles…
A
maioria de toda essa Boa Gente já partiu, não houve nenhum que levasse o burro
ou as peles, mas ficaram para memória futura os seus contos e ditos e alcunhas
assertivas e brejeiras, Vamos lá agora nomear algumas dessas "nomeadas ou Alcunhas" desses comerciantes valentões, que faziam negócios só com alguns tostões….Passo
a citar:
Estes
filhos que estiveram sempre ao seu lado, sendo um exemplo de força e dedicação.
Agora, choram a sua perda, mas tentam pôr em prática aquilo que eles lhes
ensinaram: viver a olhar em frente e a acreditar no futuro. Emigraram para
procurarem outro modo de vida. Mas todos os anos, vêm no mês de agosto, para
matar saudades dos seus antepassados, pois as suas vidas deram-lhes outras condições
de viver mais desafogados.
Texto
elaborado tendo por base o Teatro da Festa da Amizade dos Peliquiros, que se
realiza dia, 25 de Agosto.
Agradecimentos aos Amigos, Festa da
Amizade
Ilídio Bartolomeu

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